18 Março 2010

ARCANO 18

Dave McKean

Aqui nesse lugar com pouca luz, onde o negro é a cor e o belo é relativo,
aqui no silêncio do útero inventado é onde gosto de estar.
A escolha é natural, reflete o ser.
Tons além do bege, consciência além do óbvio.
Luz para a galáxia acima de nós.
É à noite que se pode ver as estrelas e toda magnitude do espaço.
O sol não permite contemplação direta, reina umbilical, no complexo solar.
A Lua é generosa, se permite sair de cena às vezes e descansa nossa retina.
Sob seus domínios também nos retiramos da rotina de nos sustentar
e é ela quem nos carrega.
Paz, silêncio, proteção.

Perfeita seria a eternidade ali.
No entanto, sua sabedoria nos expulsa da ilusão e nos entrega ao dia,
para desejá-la ainda mais e que volte sempre.
Teias de aranha nos infestam se adormecemos 100 anos
em seus braços de mãe divina...

Por vezes já senti algumas caminhando por meu pescoço, mas nunca as temi.
Interessante o que atraímos...
Familiar é a fauna notívaga para os de consciência difusa.
Serpentes, gatos, borboletas e coelhos brincam na floresta onírica
da imaginação e se fazem totens dos que não temem o confronto no escuro.

Linda é a prata lunar.
Se o ouro é nobre que seja o branco.
Linda é a voz que fala baixo e pausadamente.
Que música para os ouvidos é a voz... A voz da calma.
Compulsão pelo verbo me assusta mais que um grito de pavor.
Respirar é preciso. Voz é alma, voz é dom.
O tom que vibra nas cordas vocais reflete qualidades anímicas.
Estridência e volume excessivo não combinam com o lugar que escolhi para viver.
Turn it off, please.

Aqui nesse invólucro é a harmonia que deve soar.
A casa na caverna do espaço tem ecos de vidas passadas
e sussurros de vidas que virão.
Deuses caleidoscópicos cantam e pintam nas paredes de pedra.
Que bom é aqui. Não tem quase ninguém.
A Deusa guardou seus tesouros em lugares onde a maioria
não se atreve a descer. Fantástico.
Aqui onde pedras preciosas estão cravadas na rocha,
criaturas fúteis não têm valor para entrar.
Nem as tolas.

Aqui não tem alienação nem água oxigenada.
Mal tem oxigênio.
A capacidade de assombro das pessoas profundas
é a proteção mais eficaz da mãe natureza.
Símbolos de eternidade são macabros, incluem a face da morte
e horrorizam quem nunca jogou xadrez com ela.

Lá fora no mundo dos barulhentos,
bonito é pendurar ouro de tolo no pescoço e sorrir sempre.
Acho caveiras mais valiosas e seus sorrisos mais verdadeiros.
 
Que exista a superfície para a leveza patinar! E os pastos.
Bom é quando a maioria não interessa.
Excluindo vamos encontrando.
Tão diverso é o mundo, tão cheio de coisas traumatizantes:
massacre de golfinhos, homofobia, rádios e emissoras evangélicas, publicidade por telefone,
vestidos amarelos, fanatismos,
concurso mini miss (minha mãe queria ser Barbie, mas era obesa)...


Depois, terror é a porta que se fecha. O escuro necessário.
O não, obrigada, sinto muito, mas li bons livros.
Estranha é a necessidade de não estar.
Pois eu apago todas as luzes e vou.
Dizem que foi pacto.
Velas pretas queimam e o diabo paga as contas.
Horripilante sim é a verdade inventada!
Ainda assim, treino para soltar raios pelas mãos e desenvolver língua bífida.
Cada um que se assusta, que julga, que preconcebe, não se aproxima...
E eu agradeço.


Aqui na área vip do sótão sombrio, prego não entra. Só a elegância.
Às vezes não entra ninguém... Desolado é o caminho de dentro.
A pele é flor. A fome é forte. E o paladar, exigente.
A mente é potente e sacrifica a vida do lado de fora.
Precisa se encontrar no espelho do mérito conjunto.
Só se funde em hierarquias similares de vibração.


Se a melancolia não comer os ossos pode-se brincar com os gatos
e ver como são espertos ao caçarem borboletas.
A música sempre é boa por ali, sedutora.
Preenche os vazios com sofisticação e gotas de veneno.
Uma convicção íntima guia os caminhos esquerdos
e escutá-la parece suicídio cotidiano.
Quase é.

E então, onde só havia troncos retorcidos e folhas secas,
bem no meio do cemitério de ilusões,
sobre o R.I.P. das esperanças,
pode-se às vezes encontrar uma excêntrica surpresa.
A flor púrpura da raridade.

Price: Not Available.

Exótica e bela.
Potencial latente, resistente à ambientes inóspitos, sujeita ao tempo certo de florescer.
Destino. Cérebros, sonhos e planetas em conjunção.
Tudo faz sentido e os sentidos encontram seu prazer.
Só viu quem merecia ver e ao verem, se viram.
E o perfume... Invade.

Nada como a fragrância da eternidade momentânea
inebriando obstinados corações.
Sagrado.
O milagre faz dessa noite, a mais longa do ano.

Contemplação sem pressa, porque agora sim o Sol pode esperar.

0 comentários: