
Textos de arte e sobre arte escrevem, naturalmente, os críticos de arte. No entanto, o material artístico desde o ponto de vista psíquico e astrológico é, antes de tudo, a expressão de símbolos internos e do próprio caminho evolutivo do artista. Observando esses aspectos que compõem o fenômeno da criação, podemos expandir os significados presentes nas imagens e observar como estão entrelaçadas com a vida pessoal daquele que as criou.
Assim, em uma leitura astrológica das obras completas de um artista, o resultado de seu trabalho é visto como uma ferramenta de interpretação da própria psique pessoal e sua relação com o estado coletivo da alma e da cultura em que o artista vive e cria. A energia psíquica em constante transformação faz do artista um xamã que invoca as figuras mais necessárias à transformação de si mesmo e de sua época, através de sua própria linguagem, traço e estilo.
Esse processo de auto-revelação natural traz ecos do perfil cósmico particular. É como se o espaço fosse a tela de fundo para a história a ser desenhada e o primeiro desenho a ser considerado é a própria mandala da carta natal. A posição dos planetas, a fase da lua, os signos predominantes... Tudo é linguagem possível quando não se ignora os mistérios e a amplitude de ser Homo sapiens na Via Láctea.
Longe da pretensão das ciências empíricas de saber absoluto, trata-se de ampliação e filosofia. Considero uma modesta contribuição para a profunda e enigmática sabedoria dos fenômenos da vida.
Também não me cabem críticas nem avaliações estéticas. Fico com o conteúdo simbólico da arte, considerando o que os artistas são primordialmente: criadores de realidades. Médiuns de todas as entidades possíveis, que captam e transformam. Coisas vêm de dentro, coisas vêm do alto e viram mágica com tintas.
No entanto, considera-se a arte visionária, autêntica. Tampouco é do interesse da interpretação astrológica aqueles que copiam mestres, forjam estilos que vendem mais e almejam principalmente o alto valor no mercado. Deve existir uma verdadeira relação criativa com o próprio inconsciente.
É nesta dialética entre as mãos do artista e a mente profunda que vemos surgir a mensagem enviada por este núcleo superior da psique, o Self. Sua tradução aponta para o novo, seu recado vem das estrelas, do akasha, do mistério. O expresso é o símbolo, as imagens arquetípicas.
Muito além do determinismo reducionista que os leigos costumam julgar, a leitura astrológica do artista amplia e joga luz, no caminho individual daquele que se expressa por algum talento. Este é um texto desses. Um texto artístico sobre um artista.
A primeira vez que vi um trabalho do Oscar Fortunato foi quando recebi um flyer-convite para uma festa no centro da cidade, em uma escola de teatro e literatura chamada Oficina de Expressão, redutinho cult da época, de alguns artistas amigos. Era uma serigrafia de um gato arrepiando, feita em um pedaço de papelão e com a assinatura: Oscar F. Ao ver o verso, notei que era parte do encarte de um vinil da Valhalla, banda de metal feminino das antigas. Achei o máximo. O gato, a reciclagem, a cara da baterista maquiada e tatuada dando pinta... Guardei.
Fui na festa e lá estava o cara nas pick’ups. DJ da noite, jeitão Frank Zappa, rolando alguns de seus incontáveis vinis. Se me perguntam o ano, não me lembro. Ele muito menos. Com certeza, inicio dos 90. Mas nessa época, Oscar já era old school. Começou nos primórdios do rock 'n' roll goiano, na vanguarda do setor Novo Horizonte (periferia de Goiânia), unindo música, idéias e arte.
O caminho punk ascendente
Oscar é do tempo em que o preto e branco do xérox ainda dominava a semiótica da arte underground. Teve loja de discos, passou pelo fanzine, estudou artes plásticas em Londres, adora vinis raros e originais e não suporta desperdício na natureza. Gosta de reaproveitar e criar materiais. Definitivamente, il cuore punk.
Em seu caminho ascendente, foi expressando o fogo de Áries com a postura da indignação e do inconformismo presente nessas almas naturalmente guerreiras. Encontrou no “faça você mesmo” a resposta para expressar o mais impaciente e independente dos ascendentes.
Sua formação punk e anarquista não excluiu o compromisso com a ética. Define seus ideais pela sua postura e não conta até dez para deixar claro o que considera certo ou errado. Ascendentes Áries são claros e diretos ao expressar a filosofia que rege sua cabeça. Com esse signo iluminando seu caminho e conferindo peso ao pé do acelerador, ganhou as galerias, as paredes do mainstream e a admiração de muitos apreciadores de Arte. Para boas vibrações numerológicas, agora assina Oscar Fortunato, mas não esqueceu as ruas e continua doando arte urbana aos olhos de quem passa, impressas em stickers, graffiti ou silk-screen.
A música continua presente. Não se pode ignorar o primeiro símbolo que grita ao entrarmos em seu atelier. Um toca discos, rodeado por paredes de vinis. Chegar ali é saber que cada obra tem trilha sonora. E escutada com os deliciosos ruídos orgânicos que só a nostalgia do vinil concede. A música com certeza é uma de suas musas inspiradoras. Houve até uma série inteira, imagens refletindo música - ao som e com - a bênção de Bob Dylan.
Quando inaugurou seu atual atelier, a intuição natural do fogo ajudou que o dia fosse de um forte Sol, em Áries. Dia 6 de abril é o aniversário do seu reduto artístico que agora em 2010 faz um ano e promete só crescer. Assim, energias conjuntas de ascendente e local de trabalho se uniram para fluir sempre e melhor.
Asas da razão
Na coleção de infinitas possibilidades simbólicas, as figuras aladas se apresentam em bando. Pássaros, insetos... ou melhor, bem-te-vis, galos, Sporophila caerulescens - ou Coleirinha para os íntimos - tucanos, abelhas e até uma cigarra veio "making some noise".
Seriam frutos de sua mente aérea? Quando o signo é Aquário, o pensamento é seu reino e o Ar, seu elemento e aspiração. A necessidade de voar, de romper com a tirania dos limites físicos, de metamorfosear-se em algo que voe para longe, está no tutano dos aquarianos. Certa simpatia pelas aves, também. Na mitologia, o planeta regente do signo, Urano é literalmente o Céu. E se observarmos o próprio símbolo tradicional do signo, encontramos uma criatura humana e muitas vezes... Alada.
No caso de Oscar Fortunato, além do Sol no signo do aguadeiro, consideremos a presença do planeta Mercúrio, expressivo e fluente em seu signo de exaltação. Este não é um aspecto qualquer, é a posição em que o planeta da mente mais encontra ferramentas para se expressar.
Eu diria que além das criaturas aladas, as frequentes figuras humanas também retratam Aquário e sua famosa noção de “humanidade”. Principalmente em closes ou retratos, assim são os vários portraits, constantes personagens que aparecem expressando sempre personalidade, particularidades e independência. Quem ainda não viu por aí um Silly Portrait by Oscar Fortunato?
Aquário conhece e percebe muito bem os nuances da individualidade. Ele se vê diferente e também percebe diferenças. Aceita ser excêntrico e gosta de observar o ser humano. Quase sempre se decepciona, mas não costuma desistir e sempre busca iniciar as revoluções, antes de tudo, ao seu redor. O poder de voar almeja a leveza do mundo ideal e é justo o forte idealismo aquariano que traz os ventos da mudança.
Oscar é um mensageiro do novo e da coletividade. Conhece a relevância social da arte e seu papel ali, no circuito em que atua. Gosta de se unir a outros artistas, trabalhar junto, trocar idéias e sabe da necessidade de releitura e transformação do coletivo obsoleto que ainda se impõe em sua capital rural.
Sabe que artistas não são estrelas sem constelação, acredita que egocentrismo é mais publicidade decadente que brilhantismo e sabe que a arte goiana não se concentra nos antigos anos 80. Novos tempos se assomam e aquarianos possuem boas antenas para se conectar com as vanguardas. Mais que receber as freqüências superiores, transmiti-las é importante e é isso que o cântaro derramando água, ícone do signo, representa. Na verdade nem se trata de água, mas do líquido da criatividade original.
Quem conhece sabe que seu atelier é aberto aos interessados e Oscar gosta de ser acessível e educado. Inclusive seu trabalho é democrático e abrangente. Coabitando no atelier com grandes e valiosas telas em óleo e objetos em materiais diversos, estão desenhos lindos a preços especiais para jovens colecionadores e admiradores de arte. Ele não faz a linha Sol, sabe que a arte é todo um Universo.
Urano é na mitologia a própria personificação do céu estrelado. Aquário manifesta na vida e na arte expressões desse deus da luz primordial. Ouranos - como o Varuna no Rig Veda - é o criador e guardião da lei cósmica, o rebelde divino. Como Prometeu, ele acha que o fogo não pertence somente aos deuses, mas a todos os mortais.
Facilmente, com espírito de pioneirismo e comportamento iconoclasta, Oscar Fortunato rouba o fogo e perturba os ordenados conceitos. Não apenas cria. Tem voz ativa quando se trata de expressar opiniões e questionar. Fala o que pensa, defende suas razões e até agride... mas só aqueles que esperam mais polidez (ou hipocrisia) que sinceridade.
Também se atribui a Urano a invenção científica. Super interessante é o Linoplasto, criação exclusiva do artista. Um material composto de várias camadas de tinta que serve de base para alguns de seus trabalhos. Conhecida é a capacidade magaiveriana do artista. Praticamente tudo sai do seu próprio atelier-laboratório. Em seu trabalho, nada é terceirizado.
Originalidade, racionalidade e atitude. A voz de Urano diz: “tudo tem uma razão, encontre. Faça à sua maneira e modifique as formas obsoletas vigentes”. Imagine escutar sempre conselhos assim...
O selo perseguidor
A Lua no mapa astral de um homem é uma maravilha de se observar. O famoso lado feminino existe e não tem essa de dizer que é sapatão pra fazer a linha Macho. É mulherzinha, pronto e acabou. Drags são homens maravilhosos que nasceram para incorporá- lo, vesti-lo, exaltá-lo. Heteros do sexo masculino vivenciam de outras formas seu exu-fêmea e uma delas é se apaixonando, relacionando e casando com mulheres que personifiquem essa diva interior. Cada um tem a sua e as características se encontram nos signos e aspectos da Lua e do planeta Vênus. Nos artistas, a projeção é ainda mais ampla e se buscarmos em suas obras, encontraremos a face dessa criatura chamada Anima, ou alma.
Com uma dama lunar advinda do mundo da água, escorpiônica e reinando em sua própria casa astrológica, a oitava... O que se pode esperar na entrada do templo particular de Oscar Fortunato? Eu diria... Uma górgona.
Agora saímos do mundo leve e humano do ar para encontrar uma celebridade entre as vilãs consagradas do sobrenatural. E como todo bom vilão, esse veio sem ser convidado. Nas próprias palavras do artista, foi ela que do nada se apresentou. Desde então o acompanha e não eventualmente, mas sempre. Foi eleita sua marca, seu selo, sua assinatura desde 1980. A imagem escolhida veio de uma heráldica antiga, hoje de domínio público.
E o que essas mulheres de olhar petrificante e juba de serpentes costumam significar? Um feminino profundo e assustador, mas também curativo, fértil e digno. A Anima é a personificação das tendências psicológicas femininas na psique de um homem. Ela rege os estados de humor, capta nuances do irracional, confere sensibilidade quando reconhecida e diz muito da capacidade de relação dos geneticamente homens. Em outras palavras, é a pomba-gira particular.
Escorpião é intenso e instintivo por natureza. Além do aracnídeo mortal que o representa, tem outro bichinho de estimação super singelo. A serpente. Quantas a Medusa tinha? Ninguém teve tempo de contar.
Quando fala sobre ela, Oscar faz questão de lembrar que quando Perseu a matou e levou sua cabeça para Athena, a deusa a considerou um poderoso escudo protetor. E é justo isso o que ela representa para ele. Bom sabermos. Pra quem não usa as lentes embaçadas do patriarcado e do machismo, o feminino que parece demoníaco se revela sábio. A górgona é criatividade e destruição em transformação eterna. Representa um tipo específico de conhecimento, não óbvio, intuitivo. Nada fácil. Quem não está pronto para olhar fundo, vira pedra. Quem superou a adolescência eterna, admira e se dá ao luxo de usá-la como patuá.
Mas a Anima sobrenatural e fantástica vai além da marca registrada. São várias as fêmeas que aparecem com atributos do além na obra do artista. Sereias, senhoras fantasmagóricas, mulheres com animais raros ou mágicos.
A Lua é a senhora da matéria física e da preservação. Em Escorpião, ela encontra princípios opostos, valores invisíveis e destruição, mas com propósito: recriar. Representa uma faceta intensa, muitas vezes desencadeia fortes transformações, mas no fundo está questionando, testando princípios, já que o que busca é intimidade, lealdade e sim... Eternidade.
Interessante ressaltar que na vida real, Oscar encontrou sua parte feminina aquática, casou-se com ela e hoje, com seus dois filhos, vivem e trabalham juntos. Lydia Himmen, sua mulher, é três vezes canceriana e naturalmente personifica toda a profundidade e sensibilidade da Lua no elemento água. Assim acontecem os encontros mágicos que chamamos destino. Figuras internas encontram a tela perfeita em pessoas da vida real e quando a recíproca é verdadeira, histórias cheias de significado e sentimentos profundos começam a se compor.
Muitos outros fatores astrológicos também poderiam ser observados nesse diálogo entre mapa cósmico e expressão artística: O velho e sábio Saturno na primeira casa que revela almas antigas e com experiência cármica, a conjunção de três planetas em Sagitário expandindo a consciência além dos limites de tempo e espaço, a Vênus em Capricórnio conferindo valor aos objetos de arte... Mas ainda existe história a ser percorrida e vários outros símbolos por nascer. O retrato criativo da psique humana nunca é estático, previsível, sistemático. Esperemos cenas de próximos capítulos.
Enquanto isso no laboratório...
Oscar Fortunato continua fazendo experiências malucas nos segredos do atelier. Como Varuna, um de seus deuses arquetípicos regentes, vai misturando forças opostas, ar e água, e enquanto se eleva às alturas do céu e mergulha em abismos aquáticos... Eureka! Mais uma obra de arte nasceu.




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