02 Setembro 2010

Afrodite Exaltada 2010


Página de diário de
Stella Maris
Devota de Nossa Senhora Virgem do Mar



" Eu preciso reconstruir minha persona que se perdeu no espelho da sombra. Há tempos não me sentia tão perdida. Tão distante de mim mesma.

A cada dia que passava, meu orgulho pela exaltação em peixes ia se transformando em dúvidas. Todas as virtudes que eu julgava imprescindíveis estavam se tornando aparentemente inúteis.

Onde está mesmo a riqueza de Netuno?
A pérola dos alquimistas realmente existe?
Seria o tesouro submerso apenas uma lenda?


Quando vejo o mundo da superfície com suas peripécias mentais e interesses práticos...  Palavras fáceis, atitudes-desespero, epidermes com epidermes...
Quando vejo a facilidade das conquistas desprovidas de alma, o pouco caso dos que descartam coisas valiosas sem tino para reconhecê-las, a alienação por trás da pretensão... Me desconstruo.
Parece a verdade.


Me questiono ao ponto de dissipar-me em pontos de interrogação.
Meus valores ocultos, meus sonhos, meus sentimentos e minha simbiose com as estrelas do mar, antes alicerces do meu cotidiano, agora me parecem ilusão, tempo perdido.
Olho para a realidade e me vejo triste, solitária no mundo invisível.
Ao redor,de fora, tudo igual, sempre.
Há quanto tempo as ondas vêm e vão em vão?


Tudo que escuto é que piscianos só sabem chorar e sofrer, que nunca conseguem ser práticos. Antigamente, a Vênus exaltada em peixes era meu maior orgulho. Até hoje me recordo das visões místicas que atingi graças a ela.


Mas mesmo tendo visto muitas vezes relances da Rainha do Mar e sentido suas bênçãos, o sofrimento e a dor das impossibilidades que acompanham os vislumbres do paraíso são por demais tortuosos na realidade seca.


Até a feminilidade que ela representa, sensível, poética, mística e espiritual, que interpreta amor como sinônimo de divindade e acredita em simbiose completa com outro ser no fundo das águas, se torna duvidosa e desconfiada com tantas cicatrizes, decepções e estiagems.


Mas faz parte do kit completo.
A mesma sensibilidade especial que eleva o ser no mais sublime sentido da existência - quando há amor, alegria e conexão - desce no mais profundo da zona abissal, fria, desolada e amedrontadora.
Vai mais afiar o poder secreto de peixes!
Mas quem tem não pensa em trocar.
Sim que pensa... Mas espera mudar de idéia por um motivo que o valha.


Então, como ser plena, feliz e realizada no mundo da superfície? Hoje em dia a visão do sagrado dá muito trabalho. Fé atrapalha. Ter visões nos torna patéticos, bobos, incapazes aos olhos do mundo que tem pressa.
A imaginação mítica do politeísmo supremo então...
Completamente solitários.

Mas o feérico existe, eu vejo.
Quem não vê e nem respeita, além de cego é prepotente.
Ri dos encantamentos, despreza o pó das fadas saindo lindo da varinha de condão. E quando é do interesse, ainda finge dominar a técnica de dançar com as ondas de Iemanjá.
Que palhaçada é essa? Neófitos fingindo inteireza transcendente? Onde estão os guardiões do sagrado sublime numa hora dessas? Silenciosamente pasmos...


Ano de Vênus, coisas mágicas e belas em pleno potencial para aflorar. Raramente e com dificuldades darão o ar da graça. No mais, o que se vê proliferando ao redor são pessoas desprovidas de tudo que Vênus Urania sempre considerou virtudes. Mas elas estão felizes, realizadas, nadando em prosperidade e se sentindo amadas por suas conquistas. Não é Paris Hilton e genéricas? Sure...


Elas são vazias e fúteis, mas espertas e encantadoras. Tem olho para o negócio e se relacionam primordialmente por interesse preestabelecido. 
Mas o que mais me impressiona ao ver essas versões em série da coleção Vênus Futilité é como o mundo combina com elas e como são rápidas suas conquistas. A oitava inferior da deusa tem milhões de admiradores.
O fácil é tão conveniente! Até eu queria, mas não me cabe, sou grande. Quando chamada para vivenciar na pele e na alma os peixes cósmicos, me foi dada uma missão. E o preço de minha inquietação metafísica em direção à totalidade seria mesmo a angústia.

Assim, no mundo do culto às aparências, não se encontra tantos motivos para amar a profundidade. Qualidades raras saem caro e dão trabalho. O que fazer então com tantos litros na anatomia psíquica? Peixes preserva fortes virtudes silenciosas e espera ser notado por quem tem sensibilidade para tal. Ele tem o mapa da fonte mas não sai espalhando pra quem não merece.


Mas e a sensação de perder tempo com água parada?
De ser tudo eternamente ignorado?
De estar fora da ordem mundial, de ser outsider, outlet, outbreak, out tudo?


Logo eu que antigamente costumava sentir a divindade, a Deusa Mãe encarnar no meu corpo e vibrar com meu sangue.
Verdades sutis, sentimentos transbordantes e... Sacrifícios.
Milhões de sacrifícios lá dentro acumulando fortuna.


O destino da sacerdotisa é renascer imperatriz.
Ou no mundo da superfície só tem espaço para os superficiais? Pois eu sonhei. Vi que existem pessoas de casa 10, altas na carta natal e no mundo das conquistas reais que podem ver além das ilusões da primeira camada.
Valorizam o indivíduo individuado.

Vi que há uma máfia azul onde a nobreza é o caráter, onde sensibilidade é status e valores são moedas de valor. É por isso que mesmo de cara com névoas de ilusão, não se deve corromper as vozes internas. Quando tudo fica nublado, os deuses conduzem no caminho. Lento e curvilíneo.


Hoje questiono.
Minha persona se perdeu no reflexo do espelho, no mundo das sombras.
Peixes chora quando descrente.
Vendo as pessoas leves da superfície quase me consumo pela inveja natural dos opostos. Mas elas parecem tolas, posam de felizes e nunca fizeram um sacrifício sequer pela valorização da pérola mágica. Nem imaginam talvez sua existência, afinal, não existe uma maneira fácil de se conquistar coisas de valor Real.

 
Então... antes do fim, em silêncio, a divindade me chama para a verdade. A maré sobe e tudo fica forte. Ela conhece os mistérios ocultos no meu ventre.
Com os olhos ela me diz que os que não sofrem maremotos, dilúvios ou afogamentos, tampouco sabem o que é o outro lado da vida no mar.
Ela diz que triste é quem não se lembra da cidade submersa e quem não sente o abraço maternal da sua senhora padroeira.
Redonda, urobórica, bonita.


Com a consciência dos 360 graus de visão e o centro do olho no fundo, tudo o mais é equívoco e fraqueza. Ela reina acima e absoluta. Invisível e onipresente. 
Transbordo plena de vida, imersa na verdade mais profunda do planeta água. Nada mais importa e tudo faz sentido.

Ela me mostra que meu centro é inabalável e que o mundo pode ruir que eu saberei como agir.

Os desesperados podem surtar, os medrosos gritar, os neuróticos falar sem parar, os instintos mais medonhos podem aflorar, os inseguros podem gritar, se auto-afirmar, os fracos se venderem, os falsos podem mentir... 
Que eu só vou observar. 

Ela me transforma pouco a pouco no porto mais seguro do alto - mar".



O melhor dos homens é como a água;

A água a todas as coisas beneficia

E não compete com elas.

Ocupa (os humildes) locais vistos por todos com desdém,

Nos quais se assemelha ao Tao.

Lao Tse


Homem livre, tu sempre amarás o mar!

O mar é teu espelho; contemplas tua alma

No desenrolar infinito de sua onda,

E teu espírito não é um precipício menos amargo


... Sois todos os dois tenebrosos e discretos.

Homem, ninguém conhece tuas riquezas íntimas.

De tal modo cuidais de guardar vossos segredos.

Baudelaire

1 comentários:

Maju disse...

peixes me cansa