A psicologia humaniza. Entender melhor o ser humano aprimora e liberta. No entanto, a compreensão é uma daquelas virtudes ambíguas em que nos perguntamos se vale mesmo a pena adquirir. Assim como o caráter, ela aparentemente torna a vida mais ingrata. Quanto mais aperfeiçoamos essa qualidade, mais pontos podemos perder na escala da adaptação social. Afinal, empatia requer alguns golpes no ego e esse modelito de vida não combina com o glamour do mundo da auto-afirmação.
Porém, essa virtude ambígua que sai cara no orçamento da vida real - com todas as suas condições implacáveis de sobrevivência - tem a seu favor a característica de ser persistente e incurável. Quem tem realmente desejo de conhecer melhor a espécie humana se vê obrigado a despir-se de preconceitos, cedo ou tarde. É imprescindível ser maleável, flexível, tolerante e moderno. Na verdade, há que ser inclusive, aparentemente, rebelde.
Por exemplo, uma das máximas psicológicas é que o que odiamos no outro pode ser um aspecto inconsciente de nós mesmos. Só isso já é um jab direto no ego. Quem estará disposto a aceitar essa realidade? Se eu disser aos agressores de homossexuais que no fundo, o que eles não suportam pode ser um indício de desejo reprimido, eles então passarão a agredir a si mesmos? Ou seja... É bem mais fácil e conveniente agredir o outro.
Então, partindo dessa premissa básica de que o ódio e a aversão são compensações inconscientes, nada como a aceitação natural e sem preconceitos para garantir um exemplo sano de imparcialidade. Como aquele homem maduro e consciente de sua heterosexualidade que se permite ter amigos gays e conviver perfeitamente com eles sem se sentir ameaçado em sua masculinidade.
Muitas vezes o julgamento sobre o outro também vem de uma carga social que a pessoa carrega até sem perceber. Como um machismo ancestral que não foi capaz de diferenciar, assimilou e reflete em atitudes diversas (enquanto acha que está arrasando). Para se sentir integrada na sociedade, ela concorda com a maioria. Inércia? Não seguir essas tendências de preconceitos é pecado e crime inafiançável. A necessidade de aprovação social, de exibir uma persona irreprimível e sem máculas é uma obrigação titânica. Sair dessa identificação em busca do verdadeiro eu é tarefa de herói.
Como senti desde cedo essa vontade de conhecer melhor a psique humana, precocemente fui cobaia de mim mesma. E foram tantos golpes no ego, tantas crises pessoais, tantos questionamentos profundos e tanta auto-exigência, que eu fiquei liberal demais. Com isso, cada dia mais excêntrica aos olhos alheios. Na adolescência até tiramos sarro com os caretas e nos sentimos bem em ser agressivos com nossa verdade como arma contra a ignorância predominante. Mas chega uma hora em que só queremos... Ser. Mas todos que não têm a mente livre, precisam atrapalhar e destruir a liberdade alheia, é impressionante.
Eu gosto de gente educada, sincera e liberta. Não me importa a sexualidade, a conta bancária, a “procedência”, nem muito menos o currículo de bons modos. Fico claustrofóbica é com restrições. O que me incomoda é gente com contração de esfíncter e necessidade de controle refletindo os próprios temores e inseguranças. Gosto de gente tatuada, gente que fuma ervas, gente que fala palavrão e quando bebe cai no chão. Mas também admiro gente religiosa que não tenta te converter e mais ainda gente que tem o coração bom, a alma evoluída e nem precisa de igreja. Adoro gente que consegue ir além da necessidade de aprovação e dar um golpe na expectativa alheia. Não por simples rebeldia, mas pelo ato heróico de bancar a própria personalidade, em sua plenitude. Gente que é.
Adoro o Foda-se mode on.
E com isso já me acostumei com tudo que por ventura possam pensar a meu respeito. Pois claro, devo compartilhar dos hábitos de todos que me relaciono, infalível e obrigatoriamente. O passatempo preferido dos infelizes que querem parecer felizes é julgar. Mas a psicologia também já me explicou que é o recalcado o primeiro a condenar... Ele precisa cortar cabeças para se sentir mais alto.
Sorrio em silêncio.
Eu até que gostaria de voltar a ser um espécime normal, identificado com a maioria e com a incrível sensação de pertencimento a algo, mas não há volta no caminho da destruição de projeções. Cada máscara arrancada é um degrau a menos no hight society das aparências. Cada muleta adaptativa que recusamos nos faz, aparentemente, mancos e aleijados para a corrida do status quo dos indefectíveis. E a cada "não, obrigada, isso serve para você mas não para mim", mais dedinhos apontados e comentários à meia boca somos obrigados a aguentar.
Mas quando a inveja da grama do vizinho ameaça bater à porta e sentimentos de ingratidão em relação à postura assumida chegam para aterrorizar, pela janela a consciência vem lembrar quem escolheu o desafio de andar sobre os próprios pés e agora deve pagar o preço do aprendizado. Aceito e quero honrar meus compromissos, enquanto alguma voz além sussurra lá do fundo que não foi muito bem uma escolha e então sou obrigada a concordar absolutamente. Trata-se de uma pulsão a ser lapidada.
E assim a psicologia me forjou: Não suporto caretinhas, carolinhas e cacetinhas. Tenho trauma de machistas, preguiça de futilidade sem fim e principalmente pena profunda de pessoas que agridem o diferente. Preconceito é involução. Às vezes até trato bem, guardo minhas impressões para mim. Saio muda como entrei. Sou introvertida e não pretendo mais reformar o mundo. Cumpro minha missão cuidando de mim.
Adoro minhas amigas que namoram outras amigas. Tenho amigos gordos, magros, cabeludos, mauricinhos, feios e bonitos. Uma tia que vê gnomos, amigas que trabalham com a pomba gira, outras que já fizeram aborto e outras tantas que trocam de parceiros como quem troca de penteado. Várias delas não querem nem saber de macho pra pagar as contas e outras tantas estão muito bem casadas e continuam espontâneas e cheias de vida. Tenho uma grande amiga de sessenta anos que anda de moto e vários amiguinhos de infância lindos e livres graças à liberdade de expressão que os pais inteligentes e super relax concedem. Gente desbocada, gente tímida, peruas maravilhosas no dourado, pequenos príncipes da educação, madames e bruxas, punks e gentlemans, senhores inteligentes... Pessoas de todos os tipos, mas com algo em comum.
São pessoas que desenvolveram a virtude da compreensão e assumiram um compromisso com o verbo Ser. Criaturas autênticas que por terem vencido tabus para terem sua própria vida, não envenenaram de rancor e inveja a vida alheia.
Meus heróis.
"Um homem saudável não tortura os outros. Em geral, é o torturado que se torna o torturador."
"O sapato que se ajusta a um homem aperta o outro;
não há nada para a vida que funcione em todos os casos."
Carl Jung


1 comentários:
Preconceito sem conceito nao tem fundamento!!Se cada um tem um conceito, reunimos e evoluimos as ideias,cada um na buscar do seu Ser unico!!!
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