29 setembro 2010

LIBRA e os Laços de Amor


Os librianos são curiosos. Quem pensa que é fácil defini-los se enganou. E quem pensa que é fácil levar na conversa essas criaturas dóceis e amorosas se enganou mais ainda.

Com delicadas mãos de ferro, os librianos são líderes e muito donos de si.

Já percebeu como gentilmente eles deixam as decisões para os outros? E quem já percebeu que eles só aceitarão a sugestão se no fundo for o que eles desejam? Muito amigavelmente eles vão conduzindo... Até seus objetivos. E nos deixam com a linda ilusão de controle. Mas eles podem. Quem consegue ser imune a tanto charme?

Librianos são solícitos e sabem escutar. Como signo da casa 7 - a das relações, sociedades e casamentos - eles reconhecem a importância do “outro” e até se definem melhor através dele. Por isso, librianos nunca podem ficar sem relacionamentos importantes por muito tempo. Mas não se enganem mais uma vez. Eles têm reais preocupações em agradar, mas são extremamente inteligentes e em questões de ideias e ideais, não mudam de lado facilmente. Nem mesmo para agradar o papa. A perspicácia libriana é forte e diante de qualquer deslize de razão alheia, sua retórica embasada aparece para fazer com que a verdade reine. Librianos são sabidos.



É interessante observar como um signo tão racional e imparcial representa dentre outras coisas, as relações afetivas. O libriano ama amar o amor, mas paixões muito loucas e profundidade emocional desregulam forte a balança que eles têm no coração. Mais que isso, o compromisso dramático prejudica sua harmonia interna. Enquanto ideal romântico, o amor eterno de almas gêmeas é o que alimenta os filhos de Vênus. E quando encontram pessoas assim, românticas, leves e inteligentes, consideram que foram agraciados.

E de verdade foram. Mas até lá... É provável que se apaixonem justamente pelas pessoas mais loucas e temperamentais das redondezas. Afinal, quem aguentaria tanto drama como um bom e tranquilo libriano? Talvez no fundo eles tenham aquela atração inconsciente pelos opostos, aquela curiosidade por entender toda a profundidade de um sentimento visceral, mas que para eles, toma formas mais controladas e simétricas.

Quase tudo na vida de um libriano passa pela balança da proporção. Por isso são tão apaixonados pelo belo. Arte, literatura, música, beleza... E nos mais simples, pelo menos uma noção de harmonia e distinção. Quando os atributos venusianos são vividos em excesso: petulância, vaidade, orgulho, pedantismo, afetação.

Se por acaso você encontrar um libriano grosso e tosco no caminho, saiba que quem está perdido é ele. Educação e refinamento estão presentes até mesmo naqueles que não tiveram muitas oportunidades no início da vida. O senso de relações e bons tratos é nato nesses diplomatas da primavera. Mais cedo ou mais tarde, despertará ali um desejo de aprovação e uma vontade imensa de demonstrar carisma e influência.

Sempre imaginei os chefões da máfia italiana figuras  arquetipicamente capricornianas. Aquele desejo de poder material, mesclado com uma certa inadequação social saturnina mais a necessidade de controle geram ótimos Dons Corleones. Talvez daí mesmo venha o temor que inspiravam. Mas todos os chefões tinham aquela figura que “não era o dono, mas era o amigo do dono”: o conselheiro. E então, de forma indireta, esse homem inteligente e extremamente cavalheiro, se relacionava com os demais, confabulava, raciocinava e ponderava. No fim, com todo seu traquejo social e intelecto, acabava por influenciar o mais fodão das redondezas. Sempre visualizei os consiglieres como figuras librianas...
E posso garantir que é sempre bom levar em conta os conselhos desses sábios pensadores, mesmo que fazer média também seja um dos seus principais atributos.

Falando em pensar e pensamentos... É tão divertido observar como os librianos gostam de frases e aforismos! Quase sempre eles têm alguma na manga para soltar na hora certa e mais um monte anotadas e sublinhadas em algum lugar. Certa vez escutei um deles citando poeticamente essa:

“As pessoas têm que se envolver para desenvolver”. Foi como ver a astrologia brilhando plena num momento fugaz! Um libriano dizer isso é quase pleonasmo...

O que seria de Libra sem o outro lado da balança? Librianos de Sol, Lua ou Ascendente tem fome forte de companhia, mas isso não quer dizer falta de exigência. O importante é encontrar, mais uma vez, a justa medida. Quando eles percebem a dinâmica do “dar e receber”, da “lei do retorno”, do “ame ao próximo como a ti mesmo”, eles vão se aproximando do que mais buscam: uma relação de troca honesta e equilibrada.

Librianos sempre oferecem romantismo, mas até onde estão oferecendo amor? Quando notam a diferença, mágicas acontecem e flores venusianas perfumam o ambiente. Que bom, pois filhos de Vênus como eles sempre são inspirados por perfumes, flores, doces e delicadezas. Até mesmo o mais “macho" dos librianos, terá relances de refinamento e algum toque feminino que não será mais que mel para as mulheres.

Interessante notar como mulheres librianas também manifestam características do sexo oposto, mostrando certo equilíbrio (mais uma vez a palavra libriana) entre o masculino e o feminino. Percebi que o intelecto tão poderoso das librianas gera um ar implacável e auto afirmativo um pouco distante dos olhares de ressaca de Capitu e das relevâncias e compreensões da Nossa Senhora. Também nada que prejudique seu poder de sedução... A não ser que estejam tratando com aquele tipo de homem que precisa de uma dondoca dourada e plácida para projetarem sua mulher interior idealizada e fraca. Essas mulheres não. Elas são de ferro, ou melhor, de cobre!

Pensando em librianos enquanto o Sol brilha em seu signo, as imagens da união, do casamento místico, da conjunctio alquímica me vêm à mente. É tempo de sentir no ar os ventos de amor da primavera, tempo de uniões. Antes de tudo dentro de nós mesmos e depois, reflexos no exterior.



O ser (amante) humano quando conhece o outro dentro de si e aprende a amar com mais compaixão que com vontade de domínio, inicia seu caminho em direção às núpcias significativas na dimensão material. Libra, como signo que representa a parceria, nos inspira a interagir, fundir e em consequência, transformar.
Assim acontece mágica!

Magia é isso, transmutações provenientes de relações dinâmicas.

Se o solitário e sempre temeroso Ego insiste em ficar confinado em si mesmo, em exercer poder e criar dependências, nós podemos contrariá-lo um pouco investindo em relações de troca justa, nada mais libriano! Amizade antes de tudo e depois, quem sabe, entrega. Com esses ingredientes no caldeirão o fenômeno mágico está garantido. Assim, poderemos interagir conscientemente com os outros e com nós mesmos. Grande passo em direção ao significado sagrado do Amor.

Desejo aos queridos librianos um feliz aniversário e muita inspiração, para que possam ajudar a harmonizar nosso mundo com a gentileza e o romantismo que vocês tanto sabem demonstrar quando estão felizes!



"Ao ser humano não relacionado falta inteireza, pois só se pode alcançar a inteireza através da alma, e essa não pode existir sem seu outro lado, que sempre se encontra num "Tu". Inteireza é uma combinação de Eu e Tu, e estes se mostram como uma unidade transcendente cuja natureza só se pode captar simbolicamente, como nos símbolos do rotundum ou da coniunctio Solis et Lunae ( o casamento místico do sol e da lua)"
 
C. G. JUNG

23 julho 2010

QUADRANDO O CÍRCULO

Dia 07 de agosto de 2010 haverá uma configuração super especial!
Ver um desenho de uma Grande Cruz se formar em um mapa astral é sempre relevante. Não há como passar despercebido um aspecto tão raro, bonito e tão temido. O próprio desenho que forma é especial. Um grande quadrado, preenchido por uma cruz. Lados opostos sendo confrontados e ao mesmo tempo desafiados por ângulos de 90 graus despertam claro, a sensação de ser “crucificado”.
As oposições e quadraturas desencadeiam conflitos que suscitam antagonismos e discórdias provocando crises. No entanto, essas mesmas crises podem impulsionar a grandes realizações. Assim, se vencida a difícil tarefa, que é lenta e dolorosa, temos algo incomumente bem integrado.
Quando soube da vindoura configuração no céu de agosto, comecei a pensar em várias coisas que poderiam acontecer no mundo e com os seres terrestres. Certo receio invade... Pessoas pouco evoluídas, com muitos demônios internos, ignorância de sobra e instintos distantes da razão, costumam ser terroristas em dias assim. Mesmo sem a intenção consciente, são tomadas pela força do inconsciente coletivo e sem nenhum controle sobre si mesmas, incitam tragédias, cometem crimes, provocam acidentes atuando como porta vozes da sombra da humanidade.
Mundialmente, grandes estruturas obsoletas, formas de pensar ultrapassadas, modelos formados e rígidos, também costumam sofrer mudanças ou pelo menos serem forçados e questionados. O velho decai em nome do novo e a Terra na base de tudo manifesta por meio dos fenômenos da natureza suas insatisfações.
Tanta coisa pode acontecer... No entanto, não se pode pensar "Ai que medo desse dia". E ficar na janela (ou na TV) esperando notícias de acontecimentos consideráveis. Não é algo instantâneo, resumido, abracadabra!
Na verdade, é o ápice de um grande e lento processo. Cada planeta em seu tempo entrou nessa dança cósmica que culmina na Grande Cruz do dia sete de agosto e continuarão a seguir seu ritmo depois dela.
Por isso é melhor pensar no que vem acontecendo no planeta e em nossas vidas há alguns anos, pois algo caminha para grandes mudanças. Se estivermos conectados com as antenas cósmicas, seguramente estaremos respondendo às necessidades do universo e consequentemente aos seus desígnios para nossa vida individual.
Foi meio de repente, olhando para um Yantra que tenho em casa que a minha mensagem particular chegou. Alguma coisa me disse naquele momento que por trás da tensão típica dessa Grande Cruz, havia uma possibilidade única de vencer demônios, purgar medos e redimir maldições. Afinal, acabava de ver no Yantra, símbolo de perfeição, uma imagem similar à do céu astrológico: quatro lados, quatro portas da percepção envolvendo a esfera da plenitude.


Yantra
Não existe parto sem tensão. Contração e dor... Nova luz, novo algo, novo tudo. No núcleo dos paradoxos internos, a possibilidade de sintetizar novos poderes. Um Yantra é para os indianos um símbolo da perfeição divina. Usado em meditações, foi consideravelmente estudado por Carl Gustav Jung em suas pesquisas. Para ele e vários outros sábios, a divindade era mais que trina. Qualquer concepção simbólica de totalidade e equilíbrio psíquico pressupõe quatro partes formando o verdadeiro elemento sagrado.
Nos estudos da alquimia, por exemplo, o milagre da auto compreensão, a união harmoniosa da verdade terrena e da celeste, dos quatro elementos na psique humana, chama-se
“a quadratura do círculo”:
Santíssima Quaternidade!
Uma oportunidade de tentar compreender a perfeição da esfera...
Observando os planetas envolvidos, temos os quatro signos cardinais ligados entre si, um de cada elemento: Áries (fogo), Libra (ar), Câncer (água) e Capricórnio (terra).
No momento fugaz da grande cruz, eles se tocam, ativando forças únicas, no entanto, a oposição entre áries e libra, marcada por vários planetas, alguns de órbita bem lenta, confere uma manifestação mais potente e especial no eixo desses dois signos.
Saturno entrou em libra há algum tempo, voltou para virgem em movimento retrógrado e agora, desde o dia 21 de julho, segue novamente em libra, aonde em breve chegarão Marte e Vênus. Ali estará até 05 de outubro de 2012. Quem tem o Sol, a Lua, o ascendente ou mesmo algum aspecto considerável nesse signo já deve ter sentido alguma pressão.
Saturno questiona, duvida e faz demorar. Saturno aperta, petrifica, força a barra. Foi considerado o “diabo” na antiguidade e também um velho sábio no despertar da psicologia profunda. Seu metal é o chumbo e ele pega pesado, mas faz crescer. Ele passa a foice na futilidade, logo, não é muito querido pelos frívolos, mas mesmo os mais introvertidos e auto exigentes já pediram um momento de descanso para o pai da alquimia interior.
Em Libra, signo onde se encontra exaltado (ou no auge do seu poder) trabalha para recriar as relações, aumentar ou diminuir as dependências mútuas de acordo com necessidades cármicas, criar novas bases mais sólidas e independentes. No entanto, é o planeta dos anéis e alianças e quer sim que haja relações, mas apenas as que merecem sobreviver por serem verdadeiras e honestas. E as interpretações seguem...
Não existe um basta para o poder dos arquétipos, só ampliações.
Marte e Vênus chegarão também, para dar força e mais poder.
Enquanto isso, do outro lado da questão...
Áries, signo da ação individual, de atitude e grande impaciência, recebe Júpiter, um antigo inimigo de Saturno, e Urano, outro planeta que representa princípios bem diferentes do austero e antiquado senhor da foice. Júpiter é o grande, o maior, a força dos instintos, a fé, a sorte e o conhecimento. Ele é otimista e ensina por prazer, mas gosta de exageros. Urano é rebelde e prefere sempre o novo, o inédito, a modernidade e até o bizarro. Sua manifestação é repentina. Rapidez e revolução fazem parte do seu estilo visionário de ser. O que eles querem? Também estou procurando entender. São energias muito diferentes duelando entre si e nós no meio de tudo.
Mas que nada, hay que sentir!
Nas outras duas pontas, temos Plutão em Capricórnio e a Lua em Câncer.
O eixo da família, pai e mãe e tudo o mais que representam estará sendo acionado. O mundo do pai, simbolicamente também é o mundo das conquistas profissionais, da razão, da independência. O mundo da mãe representa o descanso, a natureza emocional, a fuga da dura realidade. As ligações parentais são fortíssimas e nos definem em vários níveis. Quem somos nós além desse referencial é uma boa pergunta para esses dias.
Até onde já somos nós mesmos além dessas influências?
Quão independentes?
Fortalecer o que de melhor recebemos deles e tentar ultrapassar as influências negativas e possíveis traumas é o desafio.
Até onde já somos nossos próprios pais e mães?
Uau... Questão para uma vida inteira.
Os quatro elementos juntos, ligando dois eixos: o da consciência entre EU e o OUTRO e o eixo familiar, MÃE e PAI, origem e destino no mundo. Planetariamente, um drama cósmico.
Também pode nos vir à mente aquela velha história do equilíbrio entre os quatro elementos, tão famosa em literatura e cinema fantásticos. Como controlar os elementos, cada um com suas características arquetípicas, chegando assim no poder e magia do quinto elemento? Mais que armas químicas, explosões de planetas e lutas perfeitas e impossíveis, para compreender a essência do éter, do amor ou ainda, da quinta essência, existe um trabalho lento e interno de alquimia e sim, de magia. Mas como a projeção de verdades internas e sutis para o exterior predomina, deve-se ser um verdadeiro herói para perceber a real aventura e seus desafios...
Considerando que o planeta Vênus, regente do ano, também é o regente do quinto elemento... Há uma forte presença de energia feminina no astral. Como ainda há muito a ser elaborado e evoluído em relação às mulheres no mundo, infelizmente a maioria dos acontecimentos de repercussão são trágicos. Por exemplo, na mídia, vários crimes passionais explorados ao máximo. Mulheres sendo caladas por seus amantes com a morte. Até hoje, anos depois da caça às bruxas, o feminino continua subjugado e menosprezado.
É impressionante como onde não há cultura o machismo impera. É alucinante que tudo o relativo ao feminino ainda seja um fator da sombra coletiva. A evolução parece mesmo uma ilusão às vezes. Enquanto homens xucros massacram o feminino, essa força natural e coletiva renasce mais forte em outros seres, pode apostar.
Abrindo espaço para elucubrações... Alguém imagina o que as bruxas e os gays têm incomum? Por que normalmente se dão super bem? Além de abominarem o preconceito, eles se encontram no coração do Eterno Feminino, lá onde existem forças demasiado poderosas para se ignorar. Também não é coincidência que a maioria deles seja culta, inteligente, sensível e valorizem tudo que exalte a sensibilidade humana. Também existem homens heterossexuais com essa capacidade, obviamente. São raros, há de se admitir. Geralmente foram criados por mulheres fortes e sábias ou nasceram com um poder de alma e de conhecimento especiais, mais evoluídos e inteligentes que seus irmãos limitados e primatas.

Riding Witches by Otto Goetze

Pensando sobre a aniquilação do feminino e suas origens, me lembro de um dia, quando assistia a um seminário de xamanismo em Barcelona, onde vários antropólogos, xamãs e cientistas especialistas em plantas enteógenas falavam coisas sábias e maravilhosas sobre as forças da natureza. Então, perguntaram ao senhor Jonathan Ott - um etnobotânico que há anos estuda os hábitos sagrados dos índios - qual era o grande mal do mundo, o que teria acabado com aquela antiga plenitude já que antigamente tudo era tão equilibrado e em simbiose natural com o sagrado. Ele respondeu curto e grosso:
A igreja.
Nesse momento, houve uma gargalhada incontida que preencheu a sala cortando drasticamente o silêncio. Algo assim... Debochado.
Alguém adorou aquela resposta. E como tinha sido eu mesma, só pude me retrair timidamente enquanto a sala inteira me encarava e o senhor, risonho, me lançava um olhar feliz, de quem havia sido mais que compreendido.
Gostei tanto de ouvir aquilo que realmente não pude conter o riso. Foi meu lado bruxa, que naquele dia além de horrorizar os polidos europeus, também quis sair de preto em luto pelos homens mágicos do passado que adoravam a natureza como a deusa mãe. E também porque adora preto mesmo...
Sim foi a igreja. E foi ela também que consagrou a trindade como santíssima. Pai, filho e espírito santo. A mulher como fêmea, o corpo e a natureza ficaram de fora... Nada disso era sagrado para eles. Pode-se falar de Maria... Então a mulher existe para a maternidade, para a pureza e a virgindade? Existe para servir e interceder? Que conveniente esse formato inventado e mutilado do feminino. É de alucinar como era interessante para os puritanos afastar as mulheres dos seus centros de poder! Logo, os princípios renegados receberam o nome de pecado e se calaram para sempre, não é mesmo? Não, ganharam força nas sombras e foram chamados de DIABO. Aí está o quarto componente.
Em nome do pai, do filho, do espírito santo... E do feminino reprimido!
 
Incluir a natureza como deusa e reconhecer a santíssima quaternidade é começar a compreender a plenitude do corpo e da alma no planeta terra. A realidade densa e telúrica do planeta em que estamos encarnados também faz parte do conjunto, assim como a presença do Eterno Feminino e sua importância real.
A evolução da trindade para algo mais completo é um processo lento que se realiza ao longo dos séculos. Durante milênios a consciência coletiva trabalha nesse sentido. Perceber é uma questão de capacidade e vontade.
Teremos em breve uma configuração planetária mágica. Buscar saber quais serão os mitos particulares que elas poderão despertar individualmente é um primeiro passo. Quais os arquétipos da sua configuração natal? Onde esses quatro signos tocam seu mapa astral? Poucos sabem, poucos se importam. Porém, mais importante que ter a consciência e saber exatamente o que cada planeta significa ali, é estar aberto às mudanças, ter vontade de evoluir, sentir as conexões no ar, aprender a ver o óbvio e fluir com o universo.
É combater a própria ignorância com a luz do conhecimento e com a coragem de se reinventar. É livrar-se de preconceitos e de necessidades de aprovação social. Caretice é doença forte. Mata lentamente e contamina os outros ao redor.
O universo dança, segue seu percurso e tudo muda o tempo todo. Não mudar é perder o bonde para os novos tempos. E eles não vão chegar amanhã ou dia sete de agosto. Eles já estão aí. Na verdade sempre estiveram. Prontos para se revelar para as mentes mais brilhantes, insatisfeitas com a falta de luz.
No dia da Grande Cruz, só quero refletir sobre a divindade do número quatro, afinal, serão quatro signos unidos em um grande quadrado. Quero estar aberta para as vibrações do éter alquímico e lapidando minha pedra filosofal o mais redonda possível...
Espero estar em paz e tranquilidade, com velas perfumadas para minhas entidades femininas e meu Yantra vibrando plenitude em ressonância com o Universo.
Maktub!
 

“O eterno feminino nos eleva"
Final da segunda parte de Fausto
GOETHE

18 julho 2010

COMPLEJOS

Hablar del término complejo en la psicología junguiana, aunque sea una de sus más básicas terminologías, no es para nada sencillo. La palabra se ha vuelto expresión popular y hoy significa más cosas de las que había planteado Dr. Jung.

Al ser nombrado jefe de la clínica del Hospital Burgholzli en Zurich, dirigido por el profesor Bleuler, Jung se dedicó a los experimentos de asociación de palabras que probaron objetivamente la existencia del inconsciente reprimido y de donde el sacó el concepto de complejo. El descubrió por ejemplo, que el tiempo empleado por el paciente en reaccionar a determinada palabra estaba sometido a oscilaciones de apariencia irracional. Eso lo llevó a definir, entre los años de 1902 y 1903, lo que él llamó complejo afectivo. Desde entonces Jung empezó a trabajar su teoría de los complejos.

Descritos como pequeñas islas de fantasía, los complejos contienen un “quantum” de energía psíquica. Son fuertemente afectivos e incluso capaces de actuar sobre el Yo como una posesión. Los complejos ya eran conocidos en la psiquiatría de la época, lo que hizo Jung fue relacionar estos “cuerpos extraños” al inconsciente reprimido y luego al inconsciente colectivo.

Los símbolos presentes en los complejos fueron las semillas para después conceptuar las imágenes como expresiones de los arquetipos, matrices del inconsciente colectivo de la humanidad.

Los complejos son resultados de una colisión entre realidad interna y realidad externa. El núcleo de los complejos contiene tanto elementos de la experiencia emocional vivida (trauma) como elementos de la condición instintiva (arquetipos).

La teoría de los complejos y su desarrollo son las piedras fundamentales del pensamiento Junguiano, que relaciona la vivencia personal e histórica de los pacientes, con un conjunto de representaciones innatas y específicas de la especie humana, los cuales corresponden a contenidos psíquicos propios de los instintos. Es decir, los arquetipos.

Los complejos son parte fundamental de la constitución de la psique, en si mismos los complejos no son patológicos. Se vuelven patológicos en cuanto mas autónomos son. Es la posesión del Yo por estos cuerpos extraños que define la patología y no su simple existencia. Jung compara este aspecto autónomo del complejo a la teoría medieval de la posesión demoníaca que tanto fue utilizada por los tribunales de la inquisición. Este espíritu poseedor toma la psique, absorbe la energía psíquica y se manifiesta de forma intermitente. Cuando poseída por un complejo, la personalidad se altera como un todo. Los tonos de voz, la intensidad emocional e incluso los latidos del corazón cambian su ritmo.

Para Jung, es en la relación del yo con el mundo que un complejo se origina. También es en esta relación con el mundo que un complejo será asimilado o no. Estas disociaciones no se originan en los fundamentos del psiquismo, sino que se forman y se actualizan a lo largo de la vida. Eso es decir que el modelo junguiano de la psique no se desarrolla a partir de los conflictos entre las instancias psíquicas (ego, superego e id) como en el modelo de Freud, sino se basa en los complejos y su integración.

Luego, toda la teoría junguiana se centra alrededor de los complejos y en el esfuerzo de comprender-los y asimilarlos.  Jung dijo que los complejos obedecen a altibajos. Pueden desaparecer por días, semanas, meses y luego volver a activarse. Cada vez que el complejo es activado, si está bajo un trabajo analítico, hay una potente liberación de energía, hasta que, en dado momento, se integra.

Integrar los complejos es la principal tarea de la psicología analítica. Para eso, Jung sugiere el diálogo entre el Yo y los complejos. Entretanto, no hay diálogo en tiempos de calma. El mejor momento para establecerlo es cuando aparece un afecto avasallador. En este momento, los pensamientos y las imágenes de los complejos inconscientes aparecen en la consciencia y sus contenidos salen a la luz.

Muchas de sus manifestaciones son representaciones simbólicas, expresas en los mitos e imágenes arcaicas, presentes en el alma del mundo, en el inconsciente colectivo. Desde esta perspectiva Jung construyó el concepto de arquetipo colectivo y el método de amplificación. De esa manera, él podría unir las fantasías delirantes de sus pacientes con las representaciones mitológicas de los pueblos antiguos. Con esta amplificación mítica, Jung esperaba que sus pacientes no estuvieran tan solos y aislados en sus delirios a la vez que alguna integración consciente de esas fantasías pudiera ocurrir.

Hay que aclarar que las fantasías impersonales también se dan en personas no enfermas, pero que están en su camino evolutivo, en el camino de la individuación. Todos nosotros tenemos nuestros huéspedes. Algunos viejos amigos, otros extranjeros desconocidos todavía.

Pero hay un momento en que ya conocemos mejor quien “habita nuestro cuerpo”, quien actúa en nosotros y todavía eso no es suficiente. Las posesiones siguen ahí para nuestra desesperación y la despotencialización del complejo no ocurre. Nos podemos incluso plantear si estamos en la dirección correcta ya que ahora estamos conscientes de tal figura, mirándola a la cara y todavía no la podemos derrotar. A veces nada parece vencer la fuerza demoníaca de un complejo. Ni la consciencia, ni la inteligencia mercurial, ni el deseo de redención.

Es exactamente la tensión fuerte de la confrontación con el complejo, la oportunidad de trabajarlo. Se puede decir que existe la posibilidad de que la actuación tan fuerte sea justamente un indicador de que el complejo empieza a perder la guerra, como si este punto álgido fuera el último y desesperado ataque del “demonio”.

Entonces, el yo empieza a darse cuenta de las bases colectivas en que están basadas sus actitudes y de la alienación que eso ejerce sobre su personalidad. Con eso, va liberándose de las fantasías de poder, placer, saber... y de sus miedos inexplicables.

Como sabemos no hay complejos buenos y complejos malos. Es demoníaco y devastador cuando es autónomo. Aceptarlo, acomodarlo, invitarlo a la mesa de la psique es la única salida. Los primitivos a su manera lo hacían, cuando en sus altares prendían velas a los demonios igual que para los dioses. En algunos cuentos de hadas cada vez que alguien se olvidaba de la décima tercera hada esta volvía para vengarse, tal como lo ejemplifica el cuento de la bella durmiente...

Recibir en la conciencia estos demonios y brujas es por donde se debe empezar el trabajo analítico. Si esperamos el tiempo cierto, con “constancia en la adversidad” como lo hacían los alquimistas en su obra, el diablito, ahora nuestro huésped, también se transformará y nos enriquecerá.



Sergio Mora

02 abril 2010

Feliz Páscoa!

Era uma vez, uma mitologia muito antiga, que se espelhava nas estações do ano e nas mudanças da natureza para celebrar seus ritos. Quando o inverno se despedia e a fertilidade voltava a verdejar nos campos, logo na primeira lua cheia da estação das flores, os motivos eram de festa, pois a natureza havia renascido e a terra geraria frutos e alimentos enquanto o Sol se aproximava cada vez mais.
Motivos suficientes para agradecer à deusa Vênus. Mas como esse povo era nórdico e falava outro idioma, chamaram-na de Deusa Eostre, ou OSTARA.

Aí chegaram os homens maus, sedentos por poder e nada criativos. Manipularam a história em nome de seus interesses. O significado de ressurreição da natureza pela mudança de estação foi transformado, e eles disseram que era a ressurreição do seu chefe. E assim seguiram deturpando. Os ovos e as lebres de Eostre, agora representariam a vida nova e a capacidade de reprodução ilimitada de seus fiéis.

A antiga Deusa da Aurora, agora estava no crepúsculo, pois disseram que um novo ídolo andou morrendo na sexta-feira e ressuscitando logo no domingo da sua festa. Agora, na lua cheia da nova estação, deveriam abster-se da carne e rezar pelo corpo que com todos os seus ossos, subiu aos céus. Mas todo mundo só quer saber mesmo é de chocolate. Bom, pelo menos a gula é um pecado bem legal e não tem nada a ver com a frugalidade representada pelo mestre cristão...

Assim, enquanto a história não foi considerada nem respeitada, a fé cega e inventada tampouco é um exemplo atual de devoção. O que o povo quer é uma boa razão pra celebrar em massa, não importa mesmo os reais motivos. Bom mesmo é ser feliz, todo mundo junto...

Eu também quero ser feliz! Não vejo a hora de devorar meu ovo de páscoa domingo! Na cidade, vou ver um monte de gente carregando raminhos nas mãos e vou imaginar que Eostre em algum lugar está super feliz também, pois sabe que as plantas sempre fizeram parte do seu culto. Suas lebres também estarão por aí, agora versão coelho, com lacinhos no pescoço e recheados de brinquedos.

Depois vou ter aquela dor de barriga, típica de quem ignora a verdade em nome do prazer. Chocolate tem tudo a ver com páscoa! É exatamente como as verdades inventadas. Não alimenta, mas é tão doce, tão bom... Se eu vou ter diarreia e engordar, deixa pra lá.
Isso é um problema para depois...

FELIZ OSTARA!

07 março 2010

Alice no País das Maravilhas, uma leitura psicológica.



Devo de início confessar que a história de Lewis Carroll nunca me conquistou completamente. Quando criança, comecei a ler e achei um tédio, mas graças as milhões de versões em filmes e desenhos que vieram depois, pude me familiarizar com o roteiro e com os personagens. Na verdade nunca havia entendido muito bem porque a história caiu tão profundamente no gosto popular até ter uma noção do que é o inconsciente coletivo e do poder que figuras arquetípicas exercem sobre ele.

Alice no país das Maravilhas é uma versão mais “under” do mito do herói. Com o tempo, até comecei a gostar mais... Depois descobri que o título no manuscrito original de Carroll era justo:
Alice`s Adventures Underground. Em realidade se tratava de uma descida aos ínferos... E tudo enfim me pareceu mais interessante.

Alice cai. O mundo novo está abaixo. Este descer é a história natural do homem, sua eterna relação com os instintos. Sem essa comunicação, essa experiência, não há maturidade, nem alquimia interior.

Uma boa maneira de interpretar tanto sonhos, como contos de fadas e histórias recheadas de arquétipos como essa é considerar que cada personagem é um aspecto de nosso ser. Essas “imagens dos instintos” são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente. Com suas peculiaridades, diferenças e divergências, estão compondo nossas facetas, tanto as perceptíveis quanto as não. Assim, podemos ampliar suas significações e buscar compreender como atuam essas forças dentro de nós.

Há tempos já se discute a ideia de que nosso eu consciente é apenas parte de nossa totalidade. Qualquer pessoa com um pouco de auto-observação já percebeu forças distintas dentro de si, sentimentos contraditórios e partes de luz e sombras compondo a personalidade. E quem se preocupou em tentar compreender melhor esses habitantes internos, é provável que já não culpe tanto os outros e o mundo externo por suas desventuras. É simples assim. Quem não reconhece sua própria dualidade interna e sua atuação inconsciente, seguramente culpa o outro, prejudica o outro e principalmente, inveja o outro.

No entanto, quem vai percebendo não só a dualidade, mas a multi-realidade interna, percebe a atuação desses Eus invisíveis e vai assim, através da conscientização, retirando as projeções, modificando sua realidade e evoluindo seu caráter.

Alice no país das Maravilhas é uma história surreal, universalmente conhecida e fonte inesgotável dessas possibilidades. Se compararmos essa famosa história fantástica com nossa anatomia psíquica, poderíamos imaginar: Quem seria a ingênua protagonista? E a vilã implacável? E o universo abaixo da terra, palco da aventura? Munidos de símbolos e suas várias interpretações, podemos chegar a interessantíssimas conclusões.

Alice, com sua ingenuidade e necessidade de encontrar o sentido das coisas, seria a mente pensante, o lado racional, o controle lógico do neocórtex, a parte mais recente do cérebro, desenvolvida especialmente nos seres humanos.
A vilã? Bem, primeiro temos que considerar que o que Alice considera uma megera malvada parte do seu ponto de vista pessoal e nada mais perturbador para o pensamento que, claro, o sentimento. Então, temos a vilã implacável, Rainha de... Corações.
Em termos científicos, uma senhora representante do sistema límbico, e também, das profundas e obscuras correntes emocionais.

E onde se trava esse duelo? Onde a mente mergulha para descobrir suas mais profundas verdades? No mundo non sense do Inconsciente. Essa é a jornada básica do herói, tão diversamente interpretada por vários estudiosos, filósofos, xamãs, psiquiatras, artistas e pessoas geniais de suas épocas.

No caso de Alice, temos uma menina dócil, jovem, vestida com cores claras e modelos campestres, às vezes até com o avental da pureza, passeando por um mundo encantado, com as mãozinhas para trás em sinal de boa educação, entre animaizinhos que falam.

Tudo sugere algo da mais pueril natureza. No entanto, estamos adentrando aos portais inferiores de uma das histórias mais bizarras já contadas para crianças. Houve inclusive quem a definiu como um culto aos estados alterados da mente, considerando a viagem de Alice uma fuga da realidade e a tão querida Lagarta Azul, fumando seu nargilé sobre um cogumelo, um símbolo explicito do lisérgico. Isso sem falar no comportamento do Chapeleiro Maluco, que chá Earl Grey não deve ter tomado para ter o nome que tem...

Porém, ampliar é melhor que resumir e considerar que artistas são pessoas especiais que captam informações de um mundo superior e plasmam na realidade à sua maneira é saber que muitas coisas estão sendo ditas ao mesmo tempo em suas obras.
Sendo assim, me parece muito mais uma metáfora da insólita viagem ao centro interior, com todos os seus caminhos escuros e habitantes sobrenaturais. Se alguém resolveu tomar algo pensando que era a garrafinha que Alice encontrou sobre a mesa e depois se encontrou com Tweedle-Dee e Tweedle-Dum... Aí já é outra história.

Quando uma viagem externa representa uma experiência interna, é normal que tempo e espaço fiquem ameaçados de dissolução. Noções comuns de medidas e distancias se desmaterializam. E o óbvio não é nada mais que... Passado.

Nas versões mais fiéis e ilustrações mais esmeradas foi conservada toda a aura sombria e fantástica que uma viagem ao inconsciente merece. Tim Burton, o mestre em direção de arte gótica que agora só faz versões, também resolveu brincar em Wonderland e será um deleite, pelo menos para os olhos. Também é de se esperar que novas cenas, jamais imaginadas por Carroll, sejam vividas pela Alice contemporânea.




Abismos, penhascos, cavernas, portais, túneis... Sempre tem algum a nos espreitar, esperando silenciosamente que a realidade insuficiente venha nos incomodar.
Alice estava entediada. Queria mais, queria um sentido maior para sua vida. Esse foi o chamado. O Coelho Branco sentiu, ele passava por ali, atrasado como sempre para algo muito importante. Representando sua imaginação fértil e inquieta, atraiu Alice a novas aventuras. Coelhos são notívagos, compõem o bestiário lunar e se escondem em... Tocas. Sua própria imaginação arranca a menina-mente da aparente comodidade e segurança do mundo conhecido para apresentar-lhe um mundo estranho, cuja inverossimilhança está mais próxima do fantástico e a realidade mais abaixo, bem mais abaixo da Terra.

Nas histórias fantásticas, portas- passagens levam a redescobrir a realidade e em geral um animalzinho amigo acompanha os aventureiros. São conhecidos como psicopompos, (guias da alma) e atuam como intermediários entre o mundo real e a abertura ao mundo da transcendência. São os únicos que também podem estar nos dois mundos distintos. Pode-se interpretar como uma representação dos instintos, que sempre estão ao nosso lado, caso falhe a razão. Dorothy tem o Totó, Coraline seu gato preto, Harry Potter tem a coruja Edwiges e Alice... O Coelho Branco.




Uma vez dentro do novo universo, toda uma fauna antropomorfizada lhe espera, cada um com sua idiossincrasia e consequentes significações psicológicas.
A presença de tantos animais sugere a natureza primitiva e instintiva do inconsciente.
Alice, ainda que de maneira insólita, busca algo além, algo que a transforme. O início é ingênuo e ela nem imagina o que a espera.

Um mundo caleidoscópico e caótico, onde o tempo passa raro e a vida não é linear. Um universo onde o intelecto é incapaz de dominar. Definitivamente, uma saga em direção à aceitação do sobrenatural.

Ali, ela enfrentará profundamente seus maiores medos, para no fim, encontrar a ela mesma, em plenitude. Porque é chavão, mas é verdade: só aquele que conhece a si próprio está apto a encontrar seu caminho verdadeiro no mundo real. Quem prefere se apegar às ilusões ao invés de encarar o difícil confronto interno, pode seguir leve e alegremente pela vida e inclusive convencer a maioria, mas não convence a si próprio e muito menos caminha em direção ao seu destino pessoal. Viver de aparências, em uma necessária perfeição, oculta um desespero interno por não cometer erros e a mais alta falta de auto- estima. Quem se ama realmente, relaxa. Simplesmente... É.
E quem realmente é inteligente e não só um mestre da teoria e da cognição, vai sim além da masturbação mental.

Parágrafo para a explicação:

Sabe aquelas discussões estéreis onde o que está em jogo é o ego e não o conhecimento acima dele? Aquela necessidade de provar que pensa mais rápido e que conhece mais nomes, referências e versinhos de cor? Aquele saber competitivo de quem leu mais livros e decorou mais fórmulas? Isso não é inteligência, é punheta verbal. Nada disso fertiliza o caráter. A informação foi ingerida, mas não necessariamente digerida.
Não há como fugir, o encontro com aspectos mais profundos de si mesmo e sua assimilação é inevitável quando se quer realmente, amadurecer.
Ai que preguiça de verborragia...

Desde a evolução da psicologia em direção aos estudos do inconsciente, sabe-se que o intelecto não é capaz de captar o fenômeno psicológico como um todo e o maior desafio da mente é sair da cristalização intelectual. O que é a lógica senão um modo de pensar convencional, em determinada época e cultura? Sua supervalorização em nosso século é uma supercompensação contra as superstições antigas. Copérnico descobriu a ordem do cosmos, Descartes veio inaugurar a Era da Razão e todo conhecimento antigo foi considerado tolice e trevas da ignorância, em nome da nova “luz do pensamento”.

A supremacia da razão é antes de tudo, reação. O caminho do meio seria mais sábio, como uma assimilação de novas ferramentas para deuses antigos. Seria o que hoje se espera de uma nova era, ciência e espiritualidade, mutuamente compreendidas. Na esfera do irracional ainda habitam temas indissociáveis do ser humano: fé, espiritualidade, instintos e sentimentos. Negá-los ou ignorá-los é reprimi-los. E em termos globais, isso gera uma terrível sombra coletiva.

Levar a cognição para o campo do sentimento é o desafio de Alice. Todos já passamos por situações em que o sentimento esmaga toda a racionalidade. A catarse de Alice se dá logo no início, quando se vê nadando em um mar formado por suas próprias lágrimas. Sua iniciação se dá assim, mergulhando e quase se afogando em seus próprios sentimentos para poder compreendê-los melhor.

No entanto, Alice ainda tenta sempre agradar, poetiza suas ideias, vive jogos de palavras e tudo precisa entender. Sempre dá bons conselhos para si mesma, mas raramente os segue. É tão idealista que ignora a realidade. A menina ainda não está madura, nem satisfeita o suficiente, mas antes de enfrentar o grande desafio de sua aventura, o aspecto emocional mais desconhecido e aterrorizante de si mesma, ela faz novos amigos.


No País das Maravilhas conhece o Chapeleiro Maluco, que pode tanto ser seu aspecto masculino e criativo (como um mago interno ou seu animus) como um personagem que já passou pela experiência que agora a menina vive e tem além de certa identificação com ela, muitas dicas para lhe dar. Num mundo de loucos, há que ser louco e isso, ele com certeza já aprendeu. O chapéu, assim como a coroa, é um símbolo de poder e soberania, o que indica que o personagem tem provas superadas e algumas responsabilidades assumidas por ali. Além disso, conecta seu usuário com ensinamentos superiores, como um receptáculo de intuições. Tudo bem que é um dos personagens mais freaks da história, e justamente por isso, em sua própria órbita, faz sentido.



O Gato de Cheshire é um personagem especial! Ele usa os vícios de Alice contra ela mesma. Ele a confunde no caminho com uma espécie de ping pong mental e espelhando seu comportamento ingenuamente superficial, oferece a ela o gosto amarguinho da sua própria ignorância. Essa figura que se apresenta em encruzilhadas e que desafia os padrões pré-estabelecidos, comportando-se de maneira inconveniente e criativa é conhecida como Trickster, o arquétipo do embusteiro.

Vilão e mocinho, tanto ajuda quanto pode atrapalhar. Ambíguo e contraditório, ele gosta de pregar peças e na maioria das vezes possui poderes mágicos como aparecer e desaparecer repentinamente. Como os tricksters, o Gato de Cheshire é solitário e está à vontade no mundo transcendental. Ele é um reflexo da própria dualidade de Alice e quando ela pergunta qual caminho deve seguir, ele sorri, ignora as normas e a confunde ainda mais. Ele a faz pensar ao mesmo tempo em que é um poço de malícia.

Na presença do embusteiro, os limites se confundem. O Gato de Cheshire se posiciona com maestria no mundo da obscuridade, integrando significados opostos e se garantindo como a exteriorização do caráter enganador da mente. E seu famoso sorriso... A dissimulação e a constatação de que sabe algo mais, algo que com certeza, não pretende compartilhar sem antes, zombar e brincar.



Alice ainda encontra muitas outras criaturas raras ao longo de sua jornada. O Ratinho, a Lebre de Março, a Duquesa, a Tartaruga Falsa... Mas podemos deixar alguns a se imaginar o que representariam.

Os irmãos “Tweedle-D´s” também são bem interessantes, pois o motivo dos gêmeos é familiar nas lendas e nos mitos. Duplos, dupla personalidade e dualismos representam um potencial criativo de proporções inusitadas. É a percepção do outro, do other side e a maravilha que nasce da união desses pares opostos.



Depois da cerimônia do chá, um rito de comunhão onde de certa forma confraterniza com forças aliadas, algumas inclusive invisíveis, a pequena Alice está mais apta a encarar sua maior antagonista.

Geralmente, em histórias que representam a jornada do herói, o mito dos mitos, o protagonista é o jovem Ego, em sua luta por libertar-se das forças ctônicas da natureza, em outras palavras, o inconsciente. Mais que libertar-se, talvez assimilar esse conteúdo matriarcal. Em Alice no país das Maravilhas esse paralelo é perfeitamente possível, até predominante. Mas também está bem claro, o paralelo mente/coração ou pensamento/sentimento, que encontra bastantes ecos nos meandros dessa história. Também podemos considerar que nosso lado cognitivo encontra expressão plena em nossa consciência egóica, naquela pontinha do iceberg, enquanto a linguagem do coração está muito mais profundamente enraizada e próxima do nosso inconsciente, e é todo o restante abaixo do nível do mar, graças é claro, há séculos de supervalorização do pensamento científico.

Para Jung, a psique busca naturalmente o equilíbrio entre suas funções opostas, como a percepção da realidade versus a intuição e o pensamento versus o sentimento. Para ele, onde há luz, há sombra. Seria dizer, onde o pensamento predomina de forma excessiva, o sentimento não consciente, como uma função indiferenciada, adquire poder implacável e pior... Autônomo. O oposto também é válido, mas não é o caso da nossa fábula de hoje. Com certeza me intriga pensar em quem seria Alice se a Rainha fosse de Espadas...

Quando Alice chega ao reino da Megera de Copas, está indo de encontro ao seu aspecto mais negligenciado até então. E o que deseja essa figura? Atenção.


A Rainha de Copas é naturalmente a Sombra de Alice. Jung definiu muito bem esse complexo pessoal presente em todos nós. A sombra é o arquétipo do renegado, das porções reprimidas, inferiorizadas e culposas, porções que até então dominavam de modo inconsciente e ansiavam pela integração a consciência. Naturalmente mostra um aspecto dominador e tirano, pois é a voz que não costuma ser ouvida. E se Alice é uma menina que tem como função superior o pensamento, a função indiferenciada é consequentemente a oposta, o sentimento. Por isso ela se faz ouvir e grita incessantemente: “Cortem-lhe a cabeça”!

A Rainha de Copas é uma figura enigmática e insondável. Poderíamos dizer inclusive, implacável. Sua característica de render problemas por onde passe lhe rendeu a fama de vilã, mas na realidade o que ela faz é acionar tudo que está escondido nos outros, levando ao conflito e à crise, mas também ao remédio amargo do autoconhecimento. E quem prefere a verdade ao paraíso confortável da ignorância, entende a função da serpente no Jardim do Éden e sabe que a Rainha de Copas, em seu reino profundo e paradoxal, representa nossas próprias facetas irracionais e tantas vezes ameaçadoras. Isso explica porque tanta gente prefere os vilões fantásticos. No fundo, como o diabo cristão, eles estão a serviço de deus. E sempre são bem mais charmosos e autênticos, diga-se de passagem.

Quando Alice chega ao Jardim de Copas, pequena como um rato para conseguir passar pela portinha, o que encontra são pequenos homens-cartas, um tanto quanto desesperados porque a rainha havia pedido que ali fosse um jardim de rosas vermelhas e eles por um erro, haviam plantado rosas brancas. Ali estavam eles desesperados, com baldes de tinta vermelha, pintando uma por uma. Óbvio assim... Ao chegar nesse reino desconhecido, sua primeira visão é justo: Tinta vermelho sangue no branco da ingenuidade!
E quem bombeia o drama?

O coração é um dos símbolos mais presentes tanto em nossa vida particular quanto em variadas expressões artísticas. Órgão régio, sua função é governar. Ele é o rei do nosso corpo. Nesse caso, a Rainha. Centro vital do ser humano, centro da individualidade e lugar da atividade divina, o coração é um vaso, um cálice, uma copa.

Ele contém a poção do amor e da imortalidade. Não é em vão que o naipe de copas represente o elemento água. A sede das emoções, o mundo dos sentimentos internos, insondáveis e sem fim. Embora a lógica do coração seja questionável, essa mesma lógica desafia a análise racional com sua sabedoria além.

A Rainha de Copas perturba e aniquila a mente, mas seu papel fundamental tem ainda propósitos mais profundos. Ao confundir o intelecto, ela obriga Alice a buscar novas formas de compreensão e aproxima a pequena ingênua a percepções interiores, ao seu próprio mundo secreto e neste momento, Alice se encontra com o princípio da maturidade.
Se para alguns o conhecimento é venenoso, para outros é curativo.



Figuras femininas que não oferecem proteção e carinho maternal em geral personificam as vilãs das histórias. Sua maldade consiste em obrigar ao crescimento e despertar uma percepção mais maliciosa da vida. É ela que vem fazer oposição ao aspecto de eterna infância paradisíaca onde queremos viver felizes para sempre, ignorando a realidade da própria natureza, onde tudo está condicionado ao tempo e aos ciclos de morte, renascimento e mais uma vez... Amadurecimento.

Mas seria muito desleal que uma menina tão frágil e “humana” tivesse como inimiga um ser mítico tão poderoso sem ter pelo menos uma ajuda ou inspiração superiores! Onde a menina mente poderia encontrar auxílio nessa hora? Como toda assimilação de novos conteúdos na psique humana parte da união de opostos, onde se faz a comparação e consequente compreensão, a Rainha de Copas também possui uma irmã oposta, a Rainha Branca. Ela é a versão benevolente da rainha despojada. E vejam que bondosa e bonita ela é. Inclusive se parece com Alice. Até intercede por ela... Amém.

Assim, Alice, a mente, percebe que o aspecto assustador e tirânico do coração é muito mais uma reação à rejeição dele próprio e de sua linguagem. A mesma força, se considerada e reconhecida, tem outro aspecto, mais familiar, mais brando, mais bonito e ainda, Real.



Um beijinho no sapo e PUF! Temos um príncipe.
E como é bom libertar-se de uma ingenuidade nociva!
Sim, porque na vida real, as "Alicinhas convictas" costumam ser pessoas (homens ou mulheres) aparentemente ingênuas, extremamente bondosas nas bochechas rosadas e politicamente corretas que simplesmente ignoram seus defeitos e querem convencer com muita força que são do bem. São superficiais e desconhecem a energia negativa que emana de seus sentimentos e ressentimentos reprimidos. Mas uma coisa é certa, se não encontrarem a Rainha de Copas dentro de si mesmas, encontrão fora, em forma de projeção sobre outras pessoas, julgando que a culpa sempre é alheia. O pior é que o encontro com a vilã se repetirá quantas vezes seja necessário até que a verdade invisível e óbvia seja reconhecida.

Qualquer batalha travada dentro de si é sempre mais enriquecedora e nobre. Evita os conflitos externos. "O que não enfrentamos em nós mesmos encontraremos como destino." Assim disse Jung, assim ensina a psicologia analítica. Todos nós podemos passar por experiências dessa natureza e o conhecimento psicológico nem é tão importante como bom senso e sabedoria para lidar com elas. Porém, quando uma função inconsciente é evitada e projetada ao máximo, as consequências são extremamente dolorosas. Ainda assim, existem casos em que uma vida não é suficiente para algumas pessoas se conscientizarem. O que se pode ver como consequência são neuroses potentes, dramas profundos, relações intensas com pessoas maléficas (porque sempre haverá uma tela para a Rainha de Copas encarnar), somatizações diversas, acidentes, vários sinais do mundo exterior gritando “Erro”, enquanto uma postura desesperada tenta manter as aparências a todo custo. Algo no mínimo, doente.

Mas a Alice ideal não decepciona e enfrenta sua fraqueza. Depois do nobre confronto com todas as dominantes psíquicas inconscientes e transpessoais, a saída que encontra é finalmente falar a língua daquele lugar. Sendo mais louca que os loucos ela faz com que os problemas insolúveis no nível racional encontrem sob o prisma da mágica e da criatividade, novas interpretações e consequentemente, soluções. Alice percebe aos poucos que o pensamento puro, quase científico, quando dissociado da esfera irracional da vida se torna estéril, para não dizer inútil. E percebe que ingenuidade insistente, depois de tantas experiências, é na verdade, ignorância.

O mundo visível e concreto é apenas parte da realidade. Quem ainda é incapaz de perceber a atuação do imaginário e das entrelinhas energéticas subliminares está no mínimo, fora de moda e no máximo, no fim da fila da evolução cósmica.
Existe um paralelo simbólico a tudo que é palpável. Uma linguagem codificada e harmônica regendo os acordes do nosso mundo material. No entanto, à percepção dessa força onipresente e dinâmica, só podemos chegar se ultrapassarmos a aparência formal das coisas e penetrarmos no profundo conteúdo além do óbvio, descendo cada vez mais fundo, em degraus rumo à sabedoria do coração.

Se hoje preferimos as explicações de cunho lógico e material é apenas porque no passado se deu mais atenção à linguagem dos fenômenos. O racionalismo nada mais é que a necessidade histórica de compensar e entender nosso passado supersticioso.
Porém é a intervenção ativa e consciente da razão no mundo mágico que inicia um novo capítulo na existência. Assim representou Alice. Ao conhecer tantos personagens estranhos, para não dizer bizarros e aprender a falar sua língua, Alice conhece a si mesma, seus vários Eus ocultos e começa a amadurecer.

Sua viagem foi como um sonho. Alice adormece e mergulha em seu inconsciente. Ali a razão perde seu controle, se torna ínfima e desnecessária. Neste mundo as normas são outras. Por isso, Alice começa a questionar suas próprias regras e ao fazer conscientes as motivações subterrâneas, simplesmente acorda, no mesmo lugar onde tudo começou, porém com uma nova visão da vida.
Como uma serpente que morde sua própria cauda, o destino de Alice é cíclico. Do principio ao fim. Solve at coagula. Um símbolo unificador e alquímico. Psicologicamente Alice cumpriu a missão de conhecer-se melhor e amadurecer emocionalmente.


Essa viagem ao interior de nossas próprias dimensões inconscientes é no início uma experiência amarga porque corrói e porque é realmente desagradável para as ilusões da consciência, mas quem paga o preço, arrasa. E encontra paz interior e mais auto-estima. Tudo bem que esses não são os prêmios mais cobiçados da sociedade moderna, mas quem tem, valoriza. Também espera encontrá-los nos outros que vão compor sua família, seu grupo, seus queridos. Não tem pra vender, o status não paga e nenhuma moeda do mundo. “Nosso ouro não é o do vulgo”, diz a máxima alquímica.

Pagando um preço muito mais alto que o dólar e decodificando as entrelinhas do País das Maravilhas, seu próprio inconsciente ancestral, Alice encontra o caminho surreal que chega sim em algum lugar. Sua vida não é mais tão entediante, ela tem novos amigos reais e imaginários, não está aterrorizada por suas inseguranças, é mais autêntica, mais sábia, mais cool e está pronta para uma nova aventura mágica, quem sabe agora através do espelho do seu mais novo Eu?