07 março 2010

Alice no País das Maravilhas, uma leitura psicológica.



Devo de início confessar que a história de Lewis Carroll nunca me conquistou completamente. Quando criança, comecei a ler e achei um tédio, mas graças as milhões de versões em filmes e desenhos que vieram depois, pude me familiarizar com o roteiro e com os personagens. Na verdade nunca havia entendido muito bem porque a história caiu tão profundamente no gosto popular até ter uma noção do que é o inconsciente coletivo e do poder que figuras arquetípicas exercem sobre ele.

Alice no país das Maravilhas é uma versão mais “under” do mito do herói. Com o tempo, até comecei a gostar mais... Depois descobri que o título no manuscrito original de Carroll era justo:
Alice`s Adventures Underground. Em realidade se tratava de uma descida aos ínferos... E tudo enfim me pareceu mais interessante.

Alice cai. O mundo novo está abaixo. Este descer é a história natural do homem, sua eterna relação com os instintos. Sem essa comunicação, essa experiência, não há maturidade, nem alquimia interior.

Uma boa maneira de interpretar tanto sonhos, como contos de fadas e histórias recheadas de arquétipos como essa é considerar que cada personagem é um aspecto de nosso ser. Essas “imagens dos instintos” são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente. Com suas peculiaridades, diferenças e divergências, estão compondo nossas facetas, tanto as perceptíveis quanto as não. Assim, podemos ampliar suas significações e buscar compreender como atuam essas forças dentro de nós.

Há tempos já se discute a ideia de que nosso eu consciente é apenas parte de nossa totalidade. Qualquer pessoa com um pouco de auto-observação já percebeu forças distintas dentro de si, sentimentos contraditórios e partes de luz e sombras compondo a personalidade. E quem se preocupou em tentar compreender melhor esses habitantes internos, é provável que já não culpe tanto os outros e o mundo externo por suas desventuras. É simples assim. Quem não reconhece sua própria dualidade interna e sua atuação inconsciente, seguramente culpa o outro, prejudica o outro e principalmente, inveja o outro.

No entanto, quem vai percebendo não só a dualidade, mas a multi-realidade interna, percebe a atuação desses Eus invisíveis e vai assim, através da conscientização, retirando as projeções, modificando sua realidade e evoluindo seu caráter.

Alice no país das Maravilhas é uma história surreal, universalmente conhecida e fonte inesgotável dessas possibilidades. Se compararmos essa famosa história fantástica com nossa anatomia psíquica, poderíamos imaginar: Quem seria a ingênua protagonista? E a vilã implacável? E o universo abaixo da terra, palco da aventura? Munidos de símbolos e suas várias interpretações, podemos chegar a interessantíssimas conclusões.

Alice, com sua ingenuidade e necessidade de encontrar o sentido das coisas, seria a mente pensante, o lado racional, o controle lógico do neocórtex, a parte mais recente do cérebro, desenvolvida especialmente nos seres humanos.
A vilã? Bem, primeiro temos que considerar que o que Alice considera uma megera malvada parte do seu ponto de vista pessoal e nada mais perturbador para o pensamento que, claro, o sentimento. Então, temos a vilã implacável, Rainha de... Corações.
Em termos científicos, uma senhora representante do sistema límbico, e também, das profundas e obscuras correntes emocionais.

E onde se trava esse duelo? Onde a mente mergulha para descobrir suas mais profundas verdades? No mundo non sense do Inconsciente. Essa é a jornada básica do herói, tão diversamente interpretada por vários estudiosos, filósofos, xamãs, psiquiatras, artistas e pessoas geniais de suas épocas.

No caso de Alice, temos uma menina dócil, jovem, vestida com cores claras e modelos campestres, às vezes até com o avental da pureza, passeando por um mundo encantado, com as mãozinhas para trás em sinal de boa educação, entre animaizinhos que falam.

Tudo sugere algo da mais pueril natureza. No entanto, estamos adentrando aos portais inferiores de uma das histórias mais bizarras já contadas para crianças. Houve inclusive quem a definiu como um culto aos estados alterados da mente, considerando a viagem de Alice uma fuga da realidade e a tão querida Lagarta Azul, fumando seu nargilé sobre um cogumelo, um símbolo explicito do lisérgico. Isso sem falar no comportamento do Chapeleiro Maluco, que chá Earl Grey não deve ter tomado para ter o nome que tem...

Porém, ampliar é melhor que resumir e considerar que artistas são pessoas especiais que captam informações de um mundo superior e plasmam na realidade à sua maneira é saber que muitas coisas estão sendo ditas ao mesmo tempo em suas obras.
Sendo assim, me parece muito mais uma metáfora da insólita viagem ao centro interior, com todos os seus caminhos escuros e habitantes sobrenaturais. Se alguém resolveu tomar algo pensando que era a garrafinha que Alice encontrou sobre a mesa e depois se encontrou com Tweedle-Dee e Tweedle-Dum... Aí já é outra história.

Quando uma viagem externa representa uma experiência interna, é normal que tempo e espaço fiquem ameaçados de dissolução. Noções comuns de medidas e distancias se desmaterializam. E o óbvio não é nada mais que... Passado.

Nas versões mais fiéis e ilustrações mais esmeradas foi conservada toda a aura sombria e fantástica que uma viagem ao inconsciente merece. Tim Burton, o mestre em direção de arte gótica que agora só faz versões, também resolveu brincar em Wonderland e será um deleite, pelo menos para os olhos. Também é de se esperar que novas cenas, jamais imaginadas por Carroll, sejam vividas pela Alice contemporânea.




Abismos, penhascos, cavernas, portais, túneis... Sempre tem algum a nos espreitar, esperando silenciosamente que a realidade insuficiente venha nos incomodar.
Alice estava entediada. Queria mais, queria um sentido maior para sua vida. Esse foi o chamado. O Coelho Branco sentiu, ele passava por ali, atrasado como sempre para algo muito importante. Representando sua imaginação fértil e inquieta, atraiu Alice a novas aventuras. Coelhos são notívagos, compõem o bestiário lunar e se escondem em... Tocas. Sua própria imaginação arranca a menina-mente da aparente comodidade e segurança do mundo conhecido para apresentar-lhe um mundo estranho, cuja inverossimilhança está mais próxima do fantástico e a realidade mais abaixo, bem mais abaixo da Terra.

Nas histórias fantásticas, portas- passagens levam a redescobrir a realidade e em geral um animalzinho amigo acompanha os aventureiros. São conhecidos como psicopompos, (guias da alma) e atuam como intermediários entre o mundo real e a abertura ao mundo da transcendência. São os únicos que também podem estar nos dois mundos distintos. Pode-se interpretar como uma representação dos instintos, que sempre estão ao nosso lado, caso falhe a razão. Dorothy tem o Totó, Coraline seu gato preto, Harry Potter tem a coruja Edwiges e Alice... O Coelho Branco.




Uma vez dentro do novo universo, toda uma fauna antropomorfizada lhe espera, cada um com sua idiossincrasia e consequentes significações psicológicas.
A presença de tantos animais sugere a natureza primitiva e instintiva do inconsciente.
Alice, ainda que de maneira insólita, busca algo além, algo que a transforme. O início é ingênuo e ela nem imagina o que a espera.

Um mundo caleidoscópico e caótico, onde o tempo passa raro e a vida não é linear. Um universo onde o intelecto é incapaz de dominar. Definitivamente, uma saga em direção à aceitação do sobrenatural.

Ali, ela enfrentará profundamente seus maiores medos, para no fim, encontrar a ela mesma, em plenitude. Porque é chavão, mas é verdade: só aquele que conhece a si próprio está apto a encontrar seu caminho verdadeiro no mundo real. Quem prefere se apegar às ilusões ao invés de encarar o difícil confronto interno, pode seguir leve e alegremente pela vida e inclusive convencer a maioria, mas não convence a si próprio e muito menos caminha em direção ao seu destino pessoal. Viver de aparências, em uma necessária perfeição, oculta um desespero interno por não cometer erros e a mais alta falta de auto- estima. Quem se ama realmente, relaxa. Simplesmente... É.
E quem realmente é inteligente e não só um mestre da teoria e da cognição, vai sim além da masturbação mental.

Parágrafo para a explicação:

Sabe aquelas discussões estéreis onde o que está em jogo é o ego e não o conhecimento acima dele? Aquela necessidade de provar que pensa mais rápido e que conhece mais nomes, referências e versinhos de cor? Aquele saber competitivo de quem leu mais livros e decorou mais fórmulas? Isso não é inteligência, é punheta verbal. Nada disso fertiliza o caráter. A informação foi ingerida, mas não necessariamente digerida.
Não há como fugir, o encontro com aspectos mais profundos de si mesmo e sua assimilação é inevitável quando se quer realmente, amadurecer.
Ai que preguiça de verborragia...

Desde a evolução da psicologia em direção aos estudos do inconsciente, sabe-se que o intelecto não é capaz de captar o fenômeno psicológico como um todo e o maior desafio da mente é sair da cristalização intelectual. O que é a lógica senão um modo de pensar convencional, em determinada época e cultura? Sua supervalorização em nosso século é uma supercompensação contra as superstições antigas. Copérnico descobriu a ordem do cosmos, Descartes veio inaugurar a Era da Razão e todo conhecimento antigo foi considerado tolice e trevas da ignorância, em nome da nova “luz do pensamento”.

A supremacia da razão é antes de tudo, reação. O caminho do meio seria mais sábio, como uma assimilação de novas ferramentas para deuses antigos. Seria o que hoje se espera de uma nova era, ciência e espiritualidade, mutuamente compreendidas. Na esfera do irracional ainda habitam temas indissociáveis do ser humano: fé, espiritualidade, instintos e sentimentos. Negá-los ou ignorá-los é reprimi-los. E em termos globais, isso gera uma terrível sombra coletiva.

Levar a cognição para o campo do sentimento é o desafio de Alice. Todos já passamos por situações em que o sentimento esmaga toda a racionalidade. A catarse de Alice se dá logo no início, quando se vê nadando em um mar formado por suas próprias lágrimas. Sua iniciação se dá assim, mergulhando e quase se afogando em seus próprios sentimentos para poder compreendê-los melhor.

No entanto, Alice ainda tenta sempre agradar, poetiza suas ideias, vive jogos de palavras e tudo precisa entender. Sempre dá bons conselhos para si mesma, mas raramente os segue. É tão idealista que ignora a realidade. A menina ainda não está madura, nem satisfeita o suficiente, mas antes de enfrentar o grande desafio de sua aventura, o aspecto emocional mais desconhecido e aterrorizante de si mesma, ela faz novos amigos.


No País das Maravilhas conhece o Chapeleiro Maluco, que pode tanto ser seu aspecto masculino e criativo (como um mago interno ou seu animus) como um personagem que já passou pela experiência que agora a menina vive e tem além de certa identificação com ela, muitas dicas para lhe dar. Num mundo de loucos, há que ser louco e isso, ele com certeza já aprendeu. O chapéu, assim como a coroa, é um símbolo de poder e soberania, o que indica que o personagem tem provas superadas e algumas responsabilidades assumidas por ali. Além disso, conecta seu usuário com ensinamentos superiores, como um receptáculo de intuições. Tudo bem que é um dos personagens mais freaks da história, e justamente por isso, em sua própria órbita, faz sentido.



O Gato de Cheshire é um personagem especial! Ele usa os vícios de Alice contra ela mesma. Ele a confunde no caminho com uma espécie de ping pong mental e espelhando seu comportamento ingenuamente superficial, oferece a ela o gosto amarguinho da sua própria ignorância. Essa figura que se apresenta em encruzilhadas e que desafia os padrões pré-estabelecidos, comportando-se de maneira inconveniente e criativa é conhecida como Trickster, o arquétipo do embusteiro.

Vilão e mocinho, tanto ajuda quanto pode atrapalhar. Ambíguo e contraditório, ele gosta de pregar peças e na maioria das vezes possui poderes mágicos como aparecer e desaparecer repentinamente. Como os tricksters, o Gato de Cheshire é solitário e está à vontade no mundo transcendental. Ele é um reflexo da própria dualidade de Alice e quando ela pergunta qual caminho deve seguir, ele sorri, ignora as normas e a confunde ainda mais. Ele a faz pensar ao mesmo tempo em que é um poço de malícia.

Na presença do embusteiro, os limites se confundem. O Gato de Cheshire se posiciona com maestria no mundo da obscuridade, integrando significados opostos e se garantindo como a exteriorização do caráter enganador da mente. E seu famoso sorriso... A dissimulação e a constatação de que sabe algo mais, algo que com certeza, não pretende compartilhar sem antes, zombar e brincar.



Alice ainda encontra muitas outras criaturas raras ao longo de sua jornada. O Ratinho, a Lebre de Março, a Duquesa, a Tartaruga Falsa... Mas podemos deixar alguns a se imaginar o que representariam.

Os irmãos “Tweedle-D´s” também são bem interessantes, pois o motivo dos gêmeos é familiar nas lendas e nos mitos. Duplos, dupla personalidade e dualismos representam um potencial criativo de proporções inusitadas. É a percepção do outro, do other side e a maravilha que nasce da união desses pares opostos.



Depois da cerimônia do chá, um rito de comunhão onde de certa forma confraterniza com forças aliadas, algumas inclusive invisíveis, a pequena Alice está mais apta a encarar sua maior antagonista.

Geralmente, em histórias que representam a jornada do herói, o mito dos mitos, o protagonista é o jovem Ego, em sua luta por libertar-se das forças ctônicas da natureza, em outras palavras, o inconsciente. Mais que libertar-se, talvez assimilar esse conteúdo matriarcal. Em Alice no país das Maravilhas esse paralelo é perfeitamente possível, até predominante. Mas também está bem claro, o paralelo mente/coração ou pensamento/sentimento, que encontra bastantes ecos nos meandros dessa história. Também podemos considerar que nosso lado cognitivo encontra expressão plena em nossa consciência egóica, naquela pontinha do iceberg, enquanto a linguagem do coração está muito mais profundamente enraizada e próxima do nosso inconsciente, e é todo o restante abaixo do nível do mar, graças é claro, há séculos de supervalorização do pensamento científico.

Para Jung, a psique busca naturalmente o equilíbrio entre suas funções opostas, como a percepção da realidade versus a intuição e o pensamento versus o sentimento. Para ele, onde há luz, há sombra. Seria dizer, onde o pensamento predomina de forma excessiva, o sentimento não consciente, como uma função indiferenciada, adquire poder implacável e pior... Autônomo. O oposto também é válido, mas não é o caso da nossa fábula de hoje. Com certeza me intriga pensar em quem seria Alice se a Rainha fosse de Espadas...

Quando Alice chega ao reino da Megera de Copas, está indo de encontro ao seu aspecto mais negligenciado até então. E o que deseja essa figura? Atenção.


A Rainha de Copas é naturalmente a Sombra de Alice. Jung definiu muito bem esse complexo pessoal presente em todos nós. A sombra é o arquétipo do renegado, das porções reprimidas, inferiorizadas e culposas, porções que até então dominavam de modo inconsciente e ansiavam pela integração a consciência. Naturalmente mostra um aspecto dominador e tirano, pois é a voz que não costuma ser ouvida. E se Alice é uma menina que tem como função superior o pensamento, a função indiferenciada é consequentemente a oposta, o sentimento. Por isso ela se faz ouvir e grita incessantemente: “Cortem-lhe a cabeça”!

A Rainha de Copas é uma figura enigmática e insondável. Poderíamos dizer inclusive, implacável. Sua característica de render problemas por onde passe lhe rendeu a fama de vilã, mas na realidade o que ela faz é acionar tudo que está escondido nos outros, levando ao conflito e à crise, mas também ao remédio amargo do autoconhecimento. E quem prefere a verdade ao paraíso confortável da ignorância, entende a função da serpente no Jardim do Éden e sabe que a Rainha de Copas, em seu reino profundo e paradoxal, representa nossas próprias facetas irracionais e tantas vezes ameaçadoras. Isso explica porque tanta gente prefere os vilões fantásticos. No fundo, como o diabo cristão, eles estão a serviço de deus. E sempre são bem mais charmosos e autênticos, diga-se de passagem.

Quando Alice chega ao Jardim de Copas, pequena como um rato para conseguir passar pela portinha, o que encontra são pequenos homens-cartas, um tanto quanto desesperados porque a rainha havia pedido que ali fosse um jardim de rosas vermelhas e eles por um erro, haviam plantado rosas brancas. Ali estavam eles desesperados, com baldes de tinta vermelha, pintando uma por uma. Óbvio assim... Ao chegar nesse reino desconhecido, sua primeira visão é justo: Tinta vermelho sangue no branco da ingenuidade!
E quem bombeia o drama?

O coração é um dos símbolos mais presentes tanto em nossa vida particular quanto em variadas expressões artísticas. Órgão régio, sua função é governar. Ele é o rei do nosso corpo. Nesse caso, a Rainha. Centro vital do ser humano, centro da individualidade e lugar da atividade divina, o coração é um vaso, um cálice, uma copa.

Ele contém a poção do amor e da imortalidade. Não é em vão que o naipe de copas represente o elemento água. A sede das emoções, o mundo dos sentimentos internos, insondáveis e sem fim. Embora a lógica do coração seja questionável, essa mesma lógica desafia a análise racional com sua sabedoria além.

A Rainha de Copas perturba e aniquila a mente, mas seu papel fundamental tem ainda propósitos mais profundos. Ao confundir o intelecto, ela obriga Alice a buscar novas formas de compreensão e aproxima a pequena ingênua a percepções interiores, ao seu próprio mundo secreto e neste momento, Alice se encontra com o princípio da maturidade.
Se para alguns o conhecimento é venenoso, para outros é curativo.



Figuras femininas que não oferecem proteção e carinho maternal em geral personificam as vilãs das histórias. Sua maldade consiste em obrigar ao crescimento e despertar uma percepção mais maliciosa da vida. É ela que vem fazer oposição ao aspecto de eterna infância paradisíaca onde queremos viver felizes para sempre, ignorando a realidade da própria natureza, onde tudo está condicionado ao tempo e aos ciclos de morte, renascimento e mais uma vez... Amadurecimento.

Mas seria muito desleal que uma menina tão frágil e “humana” tivesse como inimiga um ser mítico tão poderoso sem ter pelo menos uma ajuda ou inspiração superiores! Onde a menina mente poderia encontrar auxílio nessa hora? Como toda assimilação de novos conteúdos na psique humana parte da união de opostos, onde se faz a comparação e consequente compreensão, a Rainha de Copas também possui uma irmã oposta, a Rainha Branca. Ela é a versão benevolente da rainha despojada. E vejam que bondosa e bonita ela é. Inclusive se parece com Alice. Até intercede por ela... Amém.

Assim, Alice, a mente, percebe que o aspecto assustador e tirânico do coração é muito mais uma reação à rejeição dele próprio e de sua linguagem. A mesma força, se considerada e reconhecida, tem outro aspecto, mais familiar, mais brando, mais bonito e ainda, Real.



Um beijinho no sapo e PUF! Temos um príncipe.
E como é bom libertar-se de uma ingenuidade nociva!
Sim, porque na vida real, as "Alicinhas convictas" costumam ser pessoas (homens ou mulheres) aparentemente ingênuas, extremamente bondosas nas bochechas rosadas e politicamente corretas que simplesmente ignoram seus defeitos e querem convencer com muita força que são do bem. São superficiais e desconhecem a energia negativa que emana de seus sentimentos e ressentimentos reprimidos. Mas uma coisa é certa, se não encontrarem a Rainha de Copas dentro de si mesmas, encontrão fora, em forma de projeção sobre outras pessoas, julgando que a culpa sempre é alheia. O pior é que o encontro com a vilã se repetirá quantas vezes seja necessário até que a verdade invisível e óbvia seja reconhecida.

Qualquer batalha travada dentro de si é sempre mais enriquecedora e nobre. Evita os conflitos externos. "O que não enfrentamos em nós mesmos encontraremos como destino." Assim disse Jung, assim ensina a psicologia analítica. Todos nós podemos passar por experiências dessa natureza e o conhecimento psicológico nem é tão importante como bom senso e sabedoria para lidar com elas. Porém, quando uma função inconsciente é evitada e projetada ao máximo, as consequências são extremamente dolorosas. Ainda assim, existem casos em que uma vida não é suficiente para algumas pessoas se conscientizarem. O que se pode ver como consequência são neuroses potentes, dramas profundos, relações intensas com pessoas maléficas (porque sempre haverá uma tela para a Rainha de Copas encarnar), somatizações diversas, acidentes, vários sinais do mundo exterior gritando “Erro”, enquanto uma postura desesperada tenta manter as aparências a todo custo. Algo no mínimo, doente.

Mas a Alice ideal não decepciona e enfrenta sua fraqueza. Depois do nobre confronto com todas as dominantes psíquicas inconscientes e transpessoais, a saída que encontra é finalmente falar a língua daquele lugar. Sendo mais louca que os loucos ela faz com que os problemas insolúveis no nível racional encontrem sob o prisma da mágica e da criatividade, novas interpretações e consequentemente, soluções. Alice percebe aos poucos que o pensamento puro, quase científico, quando dissociado da esfera irracional da vida se torna estéril, para não dizer inútil. E percebe que ingenuidade insistente, depois de tantas experiências, é na verdade, ignorância.

O mundo visível e concreto é apenas parte da realidade. Quem ainda é incapaz de perceber a atuação do imaginário e das entrelinhas energéticas subliminares está no mínimo, fora de moda e no máximo, no fim da fila da evolução cósmica.
Existe um paralelo simbólico a tudo que é palpável. Uma linguagem codificada e harmônica regendo os acordes do nosso mundo material. No entanto, à percepção dessa força onipresente e dinâmica, só podemos chegar se ultrapassarmos a aparência formal das coisas e penetrarmos no profundo conteúdo além do óbvio, descendo cada vez mais fundo, em degraus rumo à sabedoria do coração.

Se hoje preferimos as explicações de cunho lógico e material é apenas porque no passado se deu mais atenção à linguagem dos fenômenos. O racionalismo nada mais é que a necessidade histórica de compensar e entender nosso passado supersticioso.
Porém é a intervenção ativa e consciente da razão no mundo mágico que inicia um novo capítulo na existência. Assim representou Alice. Ao conhecer tantos personagens estranhos, para não dizer bizarros e aprender a falar sua língua, Alice conhece a si mesma, seus vários Eus ocultos e começa a amadurecer.

Sua viagem foi como um sonho. Alice adormece e mergulha em seu inconsciente. Ali a razão perde seu controle, se torna ínfima e desnecessária. Neste mundo as normas são outras. Por isso, Alice começa a questionar suas próprias regras e ao fazer conscientes as motivações subterrâneas, simplesmente acorda, no mesmo lugar onde tudo começou, porém com uma nova visão da vida.
Como uma serpente que morde sua própria cauda, o destino de Alice é cíclico. Do principio ao fim. Solve at coagula. Um símbolo unificador e alquímico. Psicologicamente Alice cumpriu a missão de conhecer-se melhor e amadurecer emocionalmente.


Essa viagem ao interior de nossas próprias dimensões inconscientes é no início uma experiência amarga porque corrói e porque é realmente desagradável para as ilusões da consciência, mas quem paga o preço, arrasa. E encontra paz interior e mais auto-estima. Tudo bem que esses não são os prêmios mais cobiçados da sociedade moderna, mas quem tem, valoriza. Também espera encontrá-los nos outros que vão compor sua família, seu grupo, seus queridos. Não tem pra vender, o status não paga e nenhuma moeda do mundo. “Nosso ouro não é o do vulgo”, diz a máxima alquímica.

Pagando um preço muito mais alto que o dólar e decodificando as entrelinhas do País das Maravilhas, seu próprio inconsciente ancestral, Alice encontra o caminho surreal que chega sim em algum lugar. Sua vida não é mais tão entediante, ela tem novos amigos reais e imaginários, não está aterrorizada por suas inseguranças, é mais autêntica, mais sábia, mais cool e está pronta para uma nova aventura mágica, quem sabe agora através do espelho do seu mais novo Eu?


9 comentários:

gugudada disse...

adorei viajar na tua análise do conto de alice. parabens!

Debora menezes disse...

A ida e a volta!!!o eterno retorno!!!a uroboros!!!!Saber fazer o ciclo é a grande sabedoria,quem nao sabe sempre se perdi,nao em si mas em outros...
A volta so vale ser dada se nos enriquessemos da grande alquimia!!!voltar em si mesmo!!!!
UUUUUUU adorei seu texto amiga!!destroiu...

Etimologia da Galeria Potrich disse...

demaiss... sempre quis entender uma análise psicológica deste conto lisérgico... finalmente alguém entendida no assunto para me esclarecer... amei, principalmente a interpretação do coração... bjocas!!!

_garota_ do_ bolso_ disse...

Sem palavras. A maneira como você se descreve,escreve e seu gosto pelo lado underground são muito próximos aos meus, obviamente, guardando suas devidas proporções e personalidade. Se gostar, eu tenho um blog no qual exponho à minha maneira meus confrontos internos e obscuros . agarotadobolso.blogspot.com

Anônimo disse...

Sou professora e atualmente desenvolvo um ciclo de debates sobre leituras de alguns classicos; na verdade, edicoes resumidas publicadas especialmente para escolas. Procurava uma interpretacao interessante para Alice;seu texto e instigante, dara uma discussao e tanto. Obrigada.

Anônimo disse...
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Juliane Figueiredo disse...

Sem palavras para descrever como sua interpretação é equivocada! Alice não é uma menina superficial, é uma menina confusa que busca a entender a si mesma... Sinceramente, nas partes que cada personagem é "descrito" parece que você simplesmente pegou partes de textos na internet, copiou e colou. Sou fã do conto desde que me entendo por gente, é minha história favorita e fiquei realmente ofendida com sua "descrição". Fico triste que pessoas vão ler esse texto e achar que esta correto, sem contar que as imagens utilizadas para personificar as personagens é completamente poser e uso de expressões em inglês empobrecem mais ainda seu texto.

Unknown disse...

Sem palavras. Muito bom o texto. Está salvo em meus Favoritos.

Renata Maria disse...

Sensacional o texto. Somos Alices ideais, quando a coragem do autoconhecimento nos lança à mudanças e nos presenteia com a alquimia interna. Amei!